Pesquisa acadêmica vira caso de polícia, assassinato e incidente diplomático

Entidade que ajuda acadêmicos em situação de risco contabilizou 294 casos de violência, desaparecimentos, falsas acusações, processos, prisões e ameaças contra pesquisadores num período 12 meses.

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Foto: Reprodução / Facebook

Aluno de doutorado da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, o pesquisador italiano Giulio Regeni, de 28 anos, foi morar no Cairo para estudar de perto a atuação de sindicatos independentes. Apareceu morto numa vala, com o corpo mutilado, sinais de espancamento e de tortura.

O corpo ficou tão desfigurado que a mãe de Regeni disse ter reconhecido o filho “pela ponta do nariz” no necrotério.

“Naquele rosto, eu vi todo o mal do mundo e me perguntei porque todo mal do mundo se virou contra ele”, disse a mãe do pesquisador, durante uma entrevista concedida pouco mais de um mês depois da notícia da morte do estudante.

O corpo de Giulio Regeni foi encontrado em fevereiro de 2016 e somente nesta semana, quase três anos depois do crime, um promotor em Roma anunciou que cinco oficiais de segurança estão sendo investigados por suspeita de terem sequestrado o pesquisador. Quatro deles são integrantes do primeiro escalão da Agência de Segurança Nacional do Egito e são oficiais de alta patente – um general, dois coronéis e um major estão entre os investigados.

O caso de Regeni é acompanhado de perto pela Scholars at Risk (Acadêmicos em Risco), uma entidade sem fins lucrativos que monitora a liberdade acadêmica em dezenas de países, e que cobra um desfecho com identificação e punição dos culpados pela morte do italiano.

Relatório da entidade lançado no fim de novembro, contabilizou 294 casos que classificam como ataques contra pesquisadores em 47 países, registrados num período de 12 meses, entre setembro de 2017 e agosto deste ano.

A maioria deles é de prisões (88 casos), de assassinatos, desaparecimento e violência (79) e de processos (60). Há ainda casos de demissões, restrições para viajar e ameaças contra pesquisadores.

“Descrevemos os ataques ao redor do mundo como uma crise que existe há algum tempo. Estamos vendo um aumento das pressões em alguns países como na Turquia, Nicarágua e Hungria. Ao mesmo tempo, nosso trabalho em grande parte é lançar luz sobre um problema que é subnotificado”, afirma Jesse Levine, consultora sênior da Scholars at Risk, quando questionada se as situações de risco enfrentadas por acadêmicos estão crescendo.

Ela explica que o aumento dos casos registrados pode representar, ao mesmo tempo, mais ataques e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de incidentes que antes não eram encarados como ataques à liberdade acadêmica.

Ameaça à ‘segurança nacional’

Levine afirma que a Scholars at Risk sempre leva em consideração as justificativas dos governos usadas para prender, deter ou processar pesquisadores nacionais e estrangeiros. Mas, segundo ela, há indicativos de que frequentemente governos evocam leis de segurança nacional “mais como pretexto do que por uma ameaça genuína”.

Fonte: G1

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