A autorização para a possibilidade de erro não justifica a falta de empenho da pessoa

"A falha precisa ser encarada como um caminho para o aprimoramento", analisa a psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Ilustrativa

Faz alguns meses que tenho unhas compridas, dessas feitas de fibra de vidro. Um luxo que decidi me dar de presente, especialmente porque assim finjo estar impossibilitada de lavar a louça, ou de fazer serviços domésticos que exigem esforço manual. Tem sido interessante ver o pessoal lá de casa se virando nos trinta, realizando tarefas que antes nem apareciam como demandas porque tudo sempre estava em ordem. Sem qualquer culpa no cartório, tenho aproveitado o tempo, que gastava diante da pia, para apreciar a beleza estética das minhas mãos, ou até mesmo para ler uma revista que mostra a rotina de ricos e famosos. Brincadeiras à parte, desejo refletir com você sobre forma como lidamos com as dificuldades que encontramos no nosso cotidiano, principalmente no âmbito profissional.


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Ontem, enquanto estava na manicure, fiquei observando o seu trabalho. Ela moldava unha por unha e, para isso, realizava vários procedimentos, um atrás do outro, tudo feito com uma delicadeza minuciosa. Impressionada com tanto detalhe, perguntei como ela atingiu tamanho aperfeiçoamento. Com a serenidade de quem está convicta de que foi pelo caminho certo, disse que foi melhorando dia após dia, prestando atenção naquilo que não estava dando certo. Quando começou na atividade, sem prática, apenas com o conhecimento teórico, precisou de muita humildade para lidar com as críticas. Foi assim que, pouco a pouco, ganhou experiência, confiança e consistência técnica, sendo hoje uma profissional de referência na sua área.

É muito interessante pensar que, para nos tornarmos excelentes, bem possível, tivemos que fazer ajustes ao longo do caminho. Contudo, lidar com fracassos nem sempre é tão fácil assim. Na minha vivência clínica, percebo que há pessoas que ficam agarradas aos erros, que se sentem frágeis e fracassadas quando não tiveram êxito já na primeira tentativa. De forma particular, isso tem a ver com o jeito como a pessoa foi motivada a lidar com seus desacertos. Uma criança que cresce num ambiente onde não há espaço para o erro, poderá ser um adulto que não saberá lidar com a possibilidade de errar e, por conta disso, talvez até deixará de participar de projetos importantes, ou será incapaz de encarar desafios das mais diversas ordens. Assim, ao não realizar, também não irá fracassar. Por outro lado, é fundamental que, desde muito cedo, a criança seja potencializada para fazer sempre o melhor que conseguir dentro das suas capacidades.

A autorização para a possibilidade de erro jamais deve justificar a falta de empenho de alguém. Até porque aquele que insiste no mesmo erro, ou está muito atrapalhado, ou padece de desatenção crônica, o que pressupõe que tenha dificuldades em qualquer ambiente, tanto pessoal quanto profissional. Em síntese, a falha precisa ser encarada como um caminho para o aprimoramento.

Dirce Becker Delwing, psicóloga e psicanalista clínica.

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