A delicadeza pode ser hipócrita

Confira a reflexão da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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A escritora Clarice Lispector tem uma boa definição para o tema

A delicadeza pode ser hipócrita. Quantas vezes, a gente não tem coragem de encerrar um assunto de corredor e fica saltitando por dentro porque tem uma atividade que precisa terminar. Por conta disso, acaba se atrasando, ou até deixa de executar a tarefa com excelência já que sobrou pouco tempo. Quantas vezes, a gente faz de conta que escuta o outro e, na verdade, o pensamento está em outro lugar. Quantas vezes, a gente já aceitou um convite para um encontro quando, no fundo, não tinha a menor vontade de ir.

Quantas vezes, a gente já riu de uma piada que não tinha graça nenhuma. Quantas vezes, a gente faz “sim” com a cabeça mesmo quando não concordou com a pessoa. Quantas vezes, a gente diz que adorou uma comida, porém, precisou fazer um esforço para engolir garfada por garfada. Quantas vezes, a gente já bajulou alguém por acreditar que, por conta disso, seria querido por essa pessoa. Quantas vezes, a gente deixou de reclamar de algo que foi mal feito porque entende que não consegue se bancar diante da argumentação alheia. Sim, a delicadeza pode ser hipócrita. Não estou falando de fingidores, pessoas que são agradáveis, o tempo todo, por questões estratégicas.

Minha reflexão tem a ver com todas as vezes em que deveríamos conseguir colocar um limite no outro, mas preferimos desagradar a nós mesmos. Não seria muito mais respeitoso alguém dizer: “Não consigo te dar atenção porque preciso me concentrar no meu trabalho, na atividade que estou executando?”

Eu acharia um capricho de conduta se, ao entrar num ambiente, numa loja por exemplo, a vendedora que fosse me atender, chamasse atenção da colega que segue conversando como se eu não estivesse ali. Eu acharia valiosa a atitude da pessoa que seria capaz de fazer sinal para aquele cara que fala alto ao telefone em espaço público. Eu me acharia a tal se fosse capaz de dizer “não” quando não tenho a menor vontade de dizer “sim”.

Considero respeitoso quando consigo dizer para meus filhos que não serei capaz de ouvi-los com a devida atenção porque estou trabalhando. Considero legítimo quando meu esposo avisa que não deseja ser interrompido porque quer assistir ao jogo na Tv. Considero mais interessante ainda quem se banca diante do “não” do outro.

A escritora Clarice Lispector, que viveu de 1920 a 1977, devia fazer isso muito bem. Vejam só o que ela escreveu: “Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: ‘não estou com vontade de falar’. Então digo até logo e vou fazer outra coisa”.

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