A encenação do ato de ler tem recebido destaque nas publicações virtuais

Leia e assista ao comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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O professor, psicanalista e escritor francês Pierre Bayard escreveu um livro intitulado “Como falar de livros que não lemos”.  Nascido em um meio onde se lia pouco, Pierre Bayard cresceu na profissão, tornou-se professor de francês numa universidade de Paris. Pelo fato de não ter lido obras clássicas, temia que, durante a aula, algum aluno lhe provocasse a falar sobre uma obra não lida. Ele não fala de superficialidade no ato de ler, mas de atenção contínua com o mundo literário. Posso até não ter lido o livro, porém é importante que eu saiba do que ele trata para que eu possa me situar numa conversa. Você poderia falar sobre a obra a partir de conhecimentos adquiridos em outros dispositivos. Por exemplo, a pessoa teria ouvido falar do livro numa palestra, num seminário, mas não teria lido a obra.

 

Acredito que as críticas dirigidas ao autor estão fundamentadas na preocupação de que ele estaria dizendo que o importante seria aparentar que você leu, sem necessariamente ter lido o livro em questão. Aliás, falando de superficialidade literária, li uma publicação, datada do dia 28 de julho, no El País Brasil, que fala sobre a tendência de exibir estantes de mentira. Recentemente, uma influencer francesa ganhou manchetes por anunciar caixas que imitam livros de luxo. Nesse caso, você compra as caixas, monta uma estante de livros falsos e poderá se vangloriar com a sua biblioteca. Você não precisará comprar os livros e, claro, sequer lê-los. Seria a encenação do ato de ler.

Aliás, esse comportamento pode ser observado nas lives e eventos virtuais. As gravações são feitas com a pessoa tendo uma estante de livros ao fundo. E olha só, mesmo que você não seja um leitor de carteirinha, mesmo que você não tenha livros, você pode comprar um papel de parede que imita uma estante de livros, uma estante de mentira, para colocar de fundo no seu vídeo. Li também que, nas livrarias virtuais, o interesse de muitos clientes têm sido pelos posters ou cartões-postais criados para a divulgação da obra. Seria algo como comprar o cartaz do filme, mas não assistir ao filme de fato.

O que pode ter dentro desses movimentos? Me parece que o objetivo é conquistar o respeito que é conferido às pessoas que possuem o hábito da leitura. A estante de livros também ajudaria a passar um ar de conhecimento de causa e aval teórico ao tema abordado na videoconferência, ou na imagem a ser publicada.

 


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