A enfermidade do outro nos coloca em contato com os nossos medos a respeito da finitude

Quando identificamos a doença no outro, nos damos conta da nossa própria finitude


0

Esperava na fila da padaria quando encontrei uma conhecida que não via há tempo. Ela me olhava com estranheza e fazia fisionomia de quem está se sentindo desconfortável diante do outro. Mais tarde, quando já estava em casa, me dei conta de que eu estava usando um turbante na cabeça. Turbante, como vocês sabem, é uma espécie de touca de tecido.

Por esses anos todos, de um modo geral, o turbante ou lenço na cabeça vinha sendo usado por mulheres que perderam seus cabelos em função do tratamento contra o câncer. Hoje em dia, virou uma tendência fashion. Tanto é que em lojas de acessórios, é possível encontrar turbantes e lenços de diferentes cores e texturas de tecidos. Claro, o turbante é característico em algumas culturas como uma vestimenta típica, o que não irei abordar com mais profundidade neste momento. Li, por exemplo, que o acessório simboliza a resistência da mulher negra e tem ligação estreita com rituais religiosos de matriz africana. Mas, voltando a falar da minha amiga que encontrei na padaria, entendi depois que, por conta de eu estar usando algo na cabeça, sem deixar os cabelos à mostra, ela deve ter presumido que eu estaria doente. Por isso, havia certo mal-estar.

A enfermidade do outro, especialmente quando é uma doença mais agressiva, nos coloca em contato com os nossos próprios medos. Quando estamos diante de alguém que está com câncer, concluímos que a pessoa está passando ou vai passar por um tratamento intenso onde, nem sempre, o prognóstico é bom.

Também sabemos que ninguém está livre de receber um diagnóstico com uma doença grave. Por isso, quando identificamos a doença no outro, nos damos conta da nossa própria finitude, o que pode gerar angústia e sofrimento.

Texto por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui