A falta de saber acerca do outro pode desencadear interpretações levianas e injustas

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Arquivo Pessoal

Uma das lembranças que guardo da infância é o dia em que, junto com meu mano mais velho, fiz a Primeira Comunhão. A solenidade aconteceu na capela da comunidade de Rui Barbosa, município de Canudos do Vale. Lembro do desejo que meus pais tinham de fazer uma pequena comemoração para nossos padrinhos e para a nossa professora. Dias antes, a mãe preparou as conservas de salada, o pai montou uma churrasqueira com tijolos empilhados, assim como também abateram um animal para garantir o churrasco. Bem possível, naquele tempo, não me dava conta do esforço que precisavam fazer para festejar conosco, contudo, enquanto escrevo, um nó aperta minha garganta.


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Recordo que, algumas semanas depois do evento, quando recebemos a fotografia da solenidade, a mãe viu que eu era a única menina que não estava usando meias brancas. Enquanto ela comentava que ficamos bonitos, uma lágrima triste escorria discretamente pelo seu rosto. Eu não estava usando meias não porque ela não tivesse pensado nisso antes, mas porque ela não tinha condições de comprá-las. Naquela hora, não devo ter dito nada de relevante, contudo, a dor materna doeu em mim por esses anos todos.

Quando minha filha fez Primeira Eucaristia, antes de irmos para a igreja, fomos visitar a mãe na instituição onde ela estava internada. Mesmo que não pudesse se levantar ou até mesmo enxergar direito, seria capaz de tocar na roupa. Poderia sentir como minha menina estava bem arrumada, com um lindo traje, vestindo meias brancas que iam até os joelhos. Foi a forma que encontrei de viver essa emoção com ela e de, em alguma medida, enxugar aquela lágrima do passado.

Lembrei de tudo isso quando, na semana passada, li uma notícia publicada na página do Facebook da Rádio Independente. Em Belo Horizonte, antes de subir ao altar, uma filha foi até o hospital onde a mãe estava internada para mostrar seu vestido de noiva. Ela queria que a mãe se alegrasse e que abençoasse seu casamento. Quem nunca passou por situação semelhante, talvez tenha dificuldade para compreender ou atribuir sentido a uma atitude dessas. Talvez por isso é que, nos comentários dessa notícia, vi gente questionando se seria uma informação interessante para ganhar atenção da mídia. Acontece que, quando a gente não sabe o que se passa no coração do outro, corre o risco de ser raso, leviano e injusto nas interpretações que faz, especialmente se toma como base somente aquilo que está diante dos olhos.

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