A fantasia infantil é uma tentativa de substituir a cena da dor por uma realidade melhor

"Ganhei de presente a minha tão sonhada casa lilás", conta a jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Trago da infância o sonho de ter uma casa lilás. Isso porque, na meninice, alimentava a fantasia de que, se tivesse uma moradia dessa cor, desapareceriam as dificuldades que causavam sofrimento na minha família, especialmente as questões financeiras. De forma semelhante como devia ser na casa dos meus vizinhos, que tinham uma morada assim, se tivesse uma casa lilás, teria conquistado meu lugar ao sol.


ouça o quadro

 


Se você visitar o seu acervo de memórias, também deverá recordar de sonhos que alimentava como realidades possíveis para a vida adulta. E, se esmiuçar um a um, verá que muitos traziam em si o desejo de melhorar algo que, em alguma medida, causava dor ao seu pequeno coração. É muito provável que, nessa hora, irá se dar conta de que a vida tem sido muito mais caprichosa do que sua mente infantil foi capaz de imaginar.

Senti isso nesta segunda-feira quando fui surpreendida com o presente mais expressivo que já recebi nesta vida. Dizem que o Universo tem ouvidos e que, aquilo que falamos em voz alta, pode virar realidade. Não sei se é por isso, ou se tenho meus próprios méritos, mas o fato é que ganhei de presente a minha tão sonhada casa lilás. Construída com cuidado arquitetônico em cada detalhe, a obra ostenta um projeto de paisagismo com floreiras nas janelas e uma varanda com vista para o jardim, ornamentos que, na infância, não fui capaz de prever.

Desde segunda, a casa, que tem a mesma numeração da minha atual residência, fica exposta num lugar visível aos olhos do meu coração. Ela representa a conquista de tudo aquilo que eu acreditava encontrar se um dia tivesse esse privilégio. Repleta de sentimentos de amor, empatia e reconhecimento, minha casa lilás agora está diante de mim em forma de obra de arte. Uma miniatura cuidadosamente construída pelo engenheiro agrônomo Nilo Kern Cortez, que usou de sua apurada sensibilidade para representar algo que é tão significativo para mim.

Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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