A hierarquia profissional não deve abafar o afeto que permeia as relações de trabalho

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Dirce Becker Delwing

Quando iniciei minha carreira profissional, por um período, trabalhei como auxiliar de indústria numa empresa de laticínios. Minha função era limpar queijos, ou ajudar a colocar os saquinhos de parmesão ralado na caixa. Trabalho repetitivo. Dava tempo para ficar tagarelando com os colegas quando o chefe estava longe.

O funcionamento era ao estilo suricata, ou seja, alguém sempre ficava de olho para avisar caso ele, o chefe, chegasse. Só para explicar, suricatas são bichinhos de cerca de 50 centímetros de comprimento, que vivem originalmente na África, e que se revezam nas tarefas de vigia e proteção diante de possíveis predadores. Assim, também acontecia na fábrica, o chefe era percebido como uma persona não grata, como se ele fosse um fiscal, um rival, um adversário que estaria ali pra ferrar com a gente.


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Muito disso acontecia porque, naquela época, a ideia de que o clima de trabalho interfere na produtividade, passava longe das práticas de recursos humanos. Era o ano de 1983. Interessante que, aquele colega que, repetidas vezes, mostrava os dentes para o chefe sofria bullying. Era tachado de puxa-saco, baba ovo, e assim por diante.

Até hoje lembro do seu Astor. Um senhor de cerca de 45 anos, que fazia ar de durão, mas que, no fundo, tinha um coração mole. Foi o que concluí no dia em que inventei uma dor de dente insuportável. Não só me autorizou a sair antes, assim como ligou para um dentista conhecido seu para mediar um atendimento. Mal sabia ele que eu queria mesmo era voar as tranças na festa junina da escola, onde estudava à noite, e estava inventando um sofrimento como desculpa.

Contei tudo isso para dizer que, mesmo nos dias atuais, tantas vezes, situação semelhante se repete. O funcionário tem ojeriza natural do patrão e alimenta a ideia de que é constantemente explorado, ou de que precisa tirar alguma vantagem além do salário que recebe. Assim, é capaz de anotar horas de trabalho a mais do que realmente fez, pegar atestado quando poderia ter ido trabalhar, fazer corpo mole para o serviço, ou até mesmo entregar um trabalho de qualidade inferior. Por outro lado, o patrão pode ter sentimento idêntico, ainda que do lado oposto. Nesse caso, sempre que pode, arranca o couro do trabalhador e, se ele reclama, faz chantagem emocional dizendo que a pessoa deve agradecer por ter emprego.

Imagine você como é desconfortável ter laços de trabalho que funcionam dessa forma. Tudo sempre tratado na ponta da faca. Agora, inverta tudo isso e considere que patrão e empregado conseguem ter um vínculo agradável, de respeito, empatia e reciprocidade. O empregado, além de desempenhar o seu trabalho, também deixa rastros de afeto, de gentileza e de bem-querer. E o patrão, por sua vez, reconhece e valoriza essa dedicação além do que está previsto no contrato.

Andei por esses pensamentos enquanto lembrava da Márcia, a senhora que trabalha na minha casa. Todas as semanas, ela traz algo para nós. Uma fruta que colheu no seu pátio, chás verdes, verduras, ou aipim descascado que ganhou de uma família do interior. Márcia sabe que eu poderia comprar as coisas que traz. Contudo, ela também enxerga que nenhum alimento seria tão nutritivo emocionalmente quanto aquilo que reparte conosco.

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