A imortalidade de um homem está nas obras culturais que ele produz

Van Gogh conseguiu vender apenas um quadro em vida. Em 1990, um século após sua morte, uma de suas obras foi vendida por 82,5 milhões de dólares, o maior valor dado por uma obra até então


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Foto: Van Gogh Museum/Reprodução

Isso aconteceu há cerca de 20 anos. Não lembro o motivo que gerou a discussão. Mas recordo do desfecho que se desencadeou diante da briga dos meus guris. Falavam de futuro quando um deles disse que queria ser artista. Talvez músico, pintor, quem sabe, poeta. O outro nem terminou de escutar os planos e já foi avisando:

– Vais ser um cara pobre. Terei que te sustentar.

Nessa hora, decidi intervir e contei a história do pintor Van Gogh e do seu irmão Théo. Comecei perguntando se já teriam ouvido falar em Van Gogh.

– Sim, o famoso pintor.

– E o que sabem sobre Théo, irmão de Van Gogh?

– A gente nem sabia que ele tinha um irmão.

– Pois é, vejam só: Van Gogh, pintor holandês que viveu de 1853 a 1890, era um artista nato. Nunca teve muito dinheiro. Para pintar, contava com a ajuda do seu mano, que era quem lhe mandava as tintas. Théo inclusive teria comentado que Van Gogh gastava muito tinta amarela porque via o mundo através de um filtro amarelo causado pelo remédio que consumia para tratar da depressão. Depois que contei essa história, refletimos sobre o verdadeiro valor de um homem, sobre o lugar de cada um de nós no mundo, e quais virtudes podem nos levar à imortalidade cultural.


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Lembrei desse episódio com os meus guris porque estou lendo o livro “Van Gogh, cartas a Théo”. Durante sua vida, Van Gogh se correspondeu, assiduamente, com seu irmão mais novo, Theo, a quem era muito ligado. Vincent Van Gogh conseguiu vender apenas um quadro em vida. Em 1990, um século após sua morte, uma de suas obras foi vendida por 82,5 milhões de dólares, o maior valor dado por uma obra até então.

Ninguém sabe precisar os motivos, mas, atualmente, uma mania Van Gogh acontece nos Estados Unidos. Anúncios com o tema Van Gogh estão em cerca de 40 cidades diferentes e saturando os feeds das mídias sociais. Em algumas cidades, como Los Angeles, já há exposições quase esgotadas antes mesmo de abrirem. Interessante que a indústria cultural é mesmo globalizada. Nos últimos meses, o livro “Van Gogh, cartas a Théo” faz sucesso nas livrarias brasileiras. Se, por um lado, Théo não conquistou a fama do seu irmão, o mundo lhe deve gratidão por ter sido o grande apoiador e financiador das obras de um dos maiores artistas de todos os tempos.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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