A impossibilidade de se despedir de um ente querido aumenta a tristeza da perda

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Imagem ilustrativa. (Foto: Divulgação)

No dia em que meu pai faleceu, outro velório acontecia na capela mortuária da comunidade onde ele morava. Por conta disso, meu pai fora velado na igreja matriz da cidade, o que ele teria considerado uma grande bênção se soubesse disso em vida. Minha mãe, que sempre fora acostumada a optar pelo mais prático e evidente, orientou que o sepultamento ocorresse ainda no final do mesmo dia, já que meu pai havia falecido no começo da madrugada anterior. O sol daquela manhã de junho ainda estava nascendo quando o carro da funerária parou diante da igreja. Até hoje escuto, mesmo em meio a altos ruídos, quando alguém manuseia o bagageiro de carro do mesmo modelo.

Fiquei em continência na porta da igreja para estar bem pertinho na hora em que o caixão passasse por ali. A mãe caminhava lentamente atrás do cortejo, amparada pela minha mana mais nova. Aos poucos, os bancos da igreja eram tomados por familiares, amigos e conhecidos. Também gente que nunca havia visto antes. Soube, à época, que alguns foram ao local para me conhecer pessoalmente porque são ouvintes deste espaço, o que considerei um gesto amoroso de reconhecimento num dos dias mais duros da minha vida.

Quando a gente vive um momento assim pela primeira vez, não sabe muito bem como se comportar, muito menos o que dizer quando alguém vem nos dar as condolências. É um dia danado em que, por sorte, volta e meia, nosso pensamento nos liberta da cena. A gente se distrai com outros afazeres e situações cotidianas, até que pensa: mas estou aqui, isso é verdade. Seria terrível demais manter o foco, o tempo todo, diante da morte escancarada na nossa frente. Talvez por isso, naquele fatídico dia, volta e meia, eu circulava pela igreja para conversar com algum conhecido. Minha mãe, que desejava nossa presença perto de si, pedia para que alguém me chamasse.

São horas de grande sofrimento, onde, entre um abraço e outro, um filme da nossa história de vida passa pela cabeça. E a projeção não acaba naquele contexto fúnebre. A sala de cinema, ou seja o dia do velório, a gente leva na bagagem de lembranças como um rito de fechamento, um tempo precioso que tivemos ao lado do falecido. Por mais duro que seja, é consolador quando, anos depois, podemos dizer: foi um velório bonito. Por isso, nesse tempo de pandemia, vejo com muito pesar a situação das famílias que não podem se despedir como gostariam de seus entes queridos. Isso, sem dúvida, aumenta a tristeza da perda.


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