A infância é o lugar onde construímos crenças sobre a valorização constante da produtividade

Confira a análise da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Ilustrativa

Na minha infância, um dos sucessos que tocava nas rádios era a canção “Soy Latino Americano”, de Zé Rodrix. A letra é uma espécie de louvor ao ócio, à boemia e à descontração e tem um verso que começa assim: “Quem madruga, Deus ajuda”.

Minha mãe repetia esse verso na hora em que a gente levantava da cama. Nesse caso, seria um elogio. Porém, se a gente demorasse para acordar, a música poderia soar como uma provocação, ou uma cobrança.

Para brincar com a mãe, meu mano mais velho respondia com outro trecho da mesma canção: “mas dormir não é pecado”. Bem possível, por essa cobrança materna é que acordar cedo traz a sensação de que estou sendo abençoada.

Durante a pandemia, sem ter que levar filho para escola, me atrevi a dormir um pouco mais em alguns dias da semana. Reconheço que, em todas as ocasiões, precisei me convencer, mentalmente, de que espichar a noite e postergar o amanhecer não me traria nenhum prejuízo. Muitas vezes, ouço relatos no consultório onde a pessoa diz algo como: ninguém me cobra, mas eu é que não sou capaz de fazer diferente.

Parece que não posso parar um minuto. Tenho que ser produtivo o tempo todo. Bem possível, assim como eu, essas pessoas tiveram educação mais rígida. Fiquei pensando nas severidades que a gente se impõe ao longo da vida e que, lá pelas tantas, precisa se dar conta de que é possível afrouxar a corda, pegar mais leve consigo mesmo.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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