A maturidade nos deixa retraídos diante de situações com potencial para o desconforto

Acompanhe o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Estive na praia com meu esposo. Aproveitamos para dar uma passadinha na beira do mar. Na areia, poucas pessoas, não mais que dez. Sentamos num lugar onde o vento não chegava com tanta força. Concluímos que a água devia estar geladíssima, afinal, nenhum vivente se arriscava num banho. Contudo, lá pelas tantas, três crianças entraram mar adentro. De longe, a gente podia acompanhar a faceirice delas. Pulavam ondas e se divertiam naquele congelador de gelo líquido, sem qualquer reclamação contra a temperatura. Ao observar a cena, ficamos refletindo sobre a disposição que as crianças têm para viver aventuras sem titubear diante de possíveis obstáculos.

Seria porque elas focam sua energia somente no prazer, deixando tímidos todos os aspectos negativos da situação? Por que, com o passar dos anos, vamos ficando mais receosos diante de vivências com potencial para o desconforto? Chega um dia em que não temos mais vontade de entrar em discussões que não vão dar em nada, não ligamos tanto para a opinião dos outros, não temos mais a menor disposição de passar trabalho por pouca coisa. Isso seria experiência de vida? Seria comodismo? Seria estratégia para não nos metermos em enrascadas?

Não estou falando de falta de entusiasmo, mas de preguiça de sofrer especialmente se a entrada na cena é opcional. Por outro lado, essa falta de energia para o sofrimento sem grandes lucros, também sinaliza desejo de viver intensamente, ao estilo pegar ou largar. Eu não perco mais tempo com relacionamentos que não me fazem bem, inclusive, evito pessoas que me colocam pra baixo. Por outro lado, é preciso estar atento para não confundir propriedade emocional com rabugice.

Talvez o escritor irlandês Oscar Wilde, que viveu de 1854 a 1900, tenha pensando numa espécie de equilíbrio ente a infância e a maturidade quando escreveu: “Não quero adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.”

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

 

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