A perda é uma experiência necessária ao desenvolvimento emocional da pessoa

A experiência da perda carrega consigo o fim de um ciclo e o início de um novo caminhar.


0
Foto: Ilustrativa

Durante 10 anos, de segunda a sexta, viajei de ônibus de Lajeado a São Leopoldo para estudar na Unisinos, período em que cursei Jornalismo e, depois, Mestrado em Comunicação Social. Tinha aula nos três turnos, contudo, à noite, era sempre mais propício para acontecer o que vou contar aqui, especialmente porque havia menos luminosidade e eu não enxergo tão bem para decifrar uma peça de cor escura em meio ao breu. Falo de perder coisas, no caso, deixar algo no banco do ônibus. Acontece que, nesses anos todos, tive que me desapegar de um único pertence, um casaco preto de linha. Na verdade, não me desapeguei porque até hoje penso nele, mesmo já tendo adquirido duas peças semelhantes.


ouça o quadro

 


 

Quando perdemos alguma coisa, seja por descuido, distração ou mesmo porque estávamos apressados, precisamos conviver com a sensação de incapacidade. Se perdi meu casaco, não fui responsável o bastante para zelar por ele. Da mesma forma, esquecer algo poderia ter um sentido inconsciente, quem sabe, algo que desejo sinalizar com o objeto que ficará visível para outra pessoa. Quando referi que, até hoje, lembro do casaco que esqueci no ônibus, no fundo, estava contando que, na infância, fui severamente repreendida em ocorrência semelhante. O tema suscita diferentes reflexões, inclusive, faz pensar que cada pessoa lida com suas perdas de um jeito muito singular, o que, em grande medida, está relacionado à forma como situações de tal ordem foram vivenciadas nos primeiros anos de vida.

A pesquisadora norte-americana Judith Viorst, autora do livro Perdas Necessárias, da editora Melhoramentos, diz que, ao longo da vida, temos de abrir mão de ilusões, expectativas e dependências. As perdas que temos incluem, além das separações e partidas de pessoas que amamos, a perda consciente ou inconsciente de nossos sonhos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança e a perda do nosso próprio “eu” jovem. Sim, porque um dia, nos damos conta de que perdemos o pique e já não somos mais tão moços. Envelhecemos, ganhamos rugas, ficamos mais lentos, enfim, perdemos algumas características e conquistamos outras.

Mas a autora vai além ao mostrar que podemos encarar as perdas desta vida como necessárias para o nosso desenvolvimento. “Aprendi que perder é o preço que pagamos para viver. Ao trilhar o caminho do nascimento até a morte, temos de passar também pela dor de renunciar a uma parte do que amamos”. Ao fazermos a escolha por um caminho, deixamos implícitas duas decisões, uma ligada ao ganho do caminho escolhido e, outra, ligada a perda daquele caminho que deixamos para traz. Ao escolher o doce, abrimos mão do salgado, do amargo.

E, assim, vamos, ao longo de cada dia, ganhando e perdendo. A experiência da perda carrega consigo o fim de um ciclo e o início de um novo caminhar. Dessa forma, a capacidade de poder viver a perda como uma oportunidade, mesmo que sofrida, faz de nós pessoas melhores e maduras.

Nome do livro: Perdas Necessárias
Autora: Judith Viorst
Editora: Melhoramentos

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui