A sorte pode ser definida pela forma de conduzir os acontecimentos

Muitas vezes, aquilo que hoje representa uma dificuldade, amanhã pode se transformar em algo positivo, adequado e saudável


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Foto: Ilustrativa

Comecei a usar óculos muito cedo. Tinha menos de quatro anos. Não recordo se isso causava algum atrapalho na hora de brincar, contudo, lembro das recomendações constantes para não quebrar as lentes. Naquele tempo, no interior, usar óculos conferia certo charme à pessoa, afinal, a família dispunha de recursos para providenciar o acessório. Talvez, por isso, carregava comigo a sensação de ser uma criança com sorte na vida. E, em grande medida, fui mesmo afortunada por ter uma mãe que não mediu esforços para melhorar a minha visão.

Reconheço que já me incomodei com o fato de não enxergar sem o auxílio de um par de lentes, especialmente nos últimos tempos diante da dificuldade que é usar máscara e óculos ao mesmo tempo. No entanto, nunca tomei para mim a real possibilidade de viver sem esse item. Talvez porque, entre outros motivos, desejei carregar comigo a bem-venturança que supus ter na infância.

Pensei nisso ontem à tarde quando minha filha enviou fotos do meu esposo provando óculos. Ele que, por esses anos todos, era capaz de achar uma agulha num palheiro, agora estava sentado numa ótica provando armações.

Confesso que aquele imagem mexeu comigo. Um sinal de que o tempo estava mostrando os seus dentes. Meu esposo envelheceu. Os anos passaram. Uma nova fase da vida está chegando. Enquanto pensava nisso, me dei conta de que tal estranhamento não aconteceu comigo porque passei a vida toda usando óculos e não vivi esse momento marcador de idade. Alguns poderiam pensar que tive o azar de nascer com problemas nos olhos, outros podem concordar comigo que fui sortuda de nascença. Tudo não passou de um grande ensaio para chegar à velhice cheia de experiência nesse quesito, afinal, de óculos eu entendo. Sorte ou azar? O que pode definir o lado em que queremos estar é a forma como interpretamos os acontecimentos cotidianos. Muitas vezes, aquilo que hoje representa uma dificuldade, amanhã pode se transformar em algo positivo, adequado e saudável.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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