A valorização de objetos de segunda mão pode ter um sentido psíquico para o comprador

"Um consumo poético, sustentável e consciente", ressalta a jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Ilustrativa / Pixabay

Me dei conta de que estou inscrita em vários grupos do Facebook onde são vendidos produtos usados. Móveis atuais e antigos, vestuários, louças e mais uma série de objetos que as pessoas oferecem para venda. Ontem mesmo, me peguei olhando uma penteadeira e um espelho. Não tenho a menor pretensão de comprar, até mesmo porque minha casa está mobiliada de forma satisfatória. Se colocar mais alguma coisa, vai parecer uma loja. Fiquei pensando no que pode ter dentro da vontade de olhar os desapegos das pessoas?

Uma das possibilidades pode ser uma espécie de curiosidade literária que me habita. Por que a pessoa estaria se desfazendo daquilo? No caso de um móvel, seria por que mudou de casa? Por que trocou o mobiliário? Por que está precisando de dinheiro? Por que era um objeto que pertencia a uma pessoa falecida? Fico inventando possíveis personagens para cada anuncio que vejo e que poderiam figurar num romance.

Também acredito que há nisso um conteúdo infantil, algo como desejar brincar com os brinquedos dos amigos, dos vizinhos, dos colegas da escolinha. Ou quando, na adolescência, usar a roupa de uma amigo pode ser encorajador. Considerando tais hipóteses, comprar um item usado seria uma possibilidade de tomar para si algo que foi de outra pessoa. Em alguma medida, eu poderia experimentar a sensação que ele teve.

Uma terceira suposição aponta para um comportamento mais concreto que traz em si o conceito de sustentabilidade e consumo consciente. Reaproveitar roupas, calçados, objetos e móveis. Aliás, a adesão ao mercado de segunda mão foi reforçada na minha família quando tivemos um intercambista convivendo conosco.

Vindo de família de situação econômica avantajada, ele poderia, por exemplo, comprar roupas de grifes famosas. Contudo, ao contrário disso, nos dez meses em que esteve conosco, todas as compras que fez foram em brechós. Ele dizia que gostava de vestes que têm uma história, que provocam um diálogo imaginário, que talvez tenham sido testemunhas de alegrias, de paixões e, quem sabe, de dores. Era interessante observar a forma como ele valorizava o que já não servia mais para o primeiro dono. Um consumo poético, sustentável e consciente.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

 

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