Multicampeão de jiu-jitsu dá aulas gratuitas para crianças autistas e com síndrome de Down em Arroio do Meio

“Meu pagamento é o sorriso das crianças”, diz Eduardo Friedrich, que aos 36 anos é considerado um dos melhores da categoria no RS


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Aulas na academia acontecem de segunda a sábados pela manhã (Foto: Gabriela Hautrive)

Com uma história de vida cheia de capítulos difíceis, Eduardo Friedrich foi abandonado por sua mãe biológica no Paraná e adotado por uma família de Arroio do Meio com quatro dias de vida. Mais tarde, teve uma infância e adolescência presenciando cenas de violência doméstica em casa. Todas as dificuldades se transformaram em combustível para se consagrar multicampeão de jiu-jitsu, e mais do que isso: ser alguém que pensa e ajuda o próximo, com realização de um projeto que envolve inclusão social. Aos 36 anos, o lutador recentemente tornou-se decacampeão gaúcho (dez campeonatos) na categoria Master II Pesadíssimo e é bicampeão Sul-Brasileiro.


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A trajetória de Friedrich no esporte é marcada por muitas medalhas e certificados, espalhados nas paredes de sua academia em Arroio do Meio, em um espaço totalmente decorado e voltado para as crianças, entre elas, aquelas especiais. Atualmente, o professor dá aulas sem custos para seis pequenos portadores de autismo e um com síndrome de Down, além de outras 57 crianças que frequentam a escola de forma particular. Mesmo em atividade e considerado um dos melhores atletas da categoria no Rio Grande do Sul, o lutador entende que nada faria sentido se o conhecimento não pudesse ser passado adiante.

“O meu pagamento é o sorriso das crianças. Com certeza, ver a felicidade delas é o mais importante. Estar entre os melhores não significaria nada se não fosse repassar os benefícios das artes marciais para quem mais precisa”, entende. Além do conhecimento esportivo, buscou cursos de qualificação sobre síndrome de Down e autismo para entender melhor o comportamento dos alunos. “É necessário que o profissional faça a leitura de cada criança, pois elas chegam em uma uma aula de uma maneira e em outra completamente diferente. Então, eu preciso criar atividades para aquele momento e para que elas sintam o desejo de voltar para as aulas em outra oportunidade”, entende o lutador.

Nos encontros, o professor ensina os passos das atividades de acordo com a possibilidade de cada criança. “Tem certos movimentos que eles não conseguem fazer, então vamos repetindo séries para que eles melhorem. Não adianta eu criar atividades que não vão conseguir fazer e não vão se sentirem bem”, pondera.

Ver a evolução delas e respeitar suas limitações faz do lutador um vencedor dentro e fora dos tatames. Porém, no início da carreira, Friedrich nem almejava chegar tão longe. “Comecei a competir no jiu-jitsu e minha única ideia era vencer uma luta, ter o prazer de sentir o gosto da vitória”, conta.

A retribuição foi muito maior: recheada de títulos. “Virei campeão, bicampeão, tricampeão e cheguei a decacampeão gaúcho. Então, o que eu posso dizer para as pessoas é que se você tem fé, se você tem um objetivo, não deixe de batalhar por ele”. Apesar de já carregar muitas medalhas, o lutador não pensa em parar e projeta novas conquistas dentro da profissão. “Pretendo conquistar o Campeonato Brasileiro e conseguir participar de um Campeonato Mundial em Abu Dhabi ou na Califórnia”, conta.

Eduardo Friedrich recentemente tornou-se decacampeão gaúcho (Foto: Gabriela Hautrive)

Agendamento de aulas e outras ações sociais

Para quem tem interesse em frequentar a academia de Friedrich, localizada na Rua São João, no Centro de Arroio do Meio, as aulas acontecem todos os dias, de segunda a sábado de manhã. O contato para agendamento pode ser feito pelo Instagram do professor (@eduardofriedrich84) ou pelo WhatsApp, através do número (51) 9 9791-7454. Podem frequentar as aulas todas as crianças a partir de três anos de idade, além de jovens e adolescentes.

Além do trabalho voluntário com crianças especiais, o lutador está inserido em diversas outras ações sociais. Todos os anos ele participa de campanhas de Natal, agasalho e alimentos para beneficiar pessoas carentes da região. Também conta com um projeto na Câmara de Vereadores de Arroio do Meio, em processo de análise, para criação de uma sala de atendimento aos alunos da academia e repasse de kimonos aos participantes.

Professor faz demonstração das atividades que depois são reproduzidas pelos alunos (Foto: Gabriela Hautrive)

Autismo e síndrome de Down

Algumas das crianças atendidas na academia são autistas ou possuem síndrome de Down. Segundo o portal Tua Saúde, o autismo, cientificamente conhecido como Transtorno do Espectro Autista (TEA), é uma síndrome caracterizada por problemas na comunicação, na socialização e no comportamento, geralmente, diagnosticada entre os 2 e 3 anos de idade. Esta síndrome faz com a criança apresente algumas características específicas, como dificuldade na fala e em expressar ideias e sentimentos, mal-estar em meio aos outros e pouco contato visual, além de padrões repetitivos e movimentos estereotipados, como ficar muito tempo sentado balançando o corpo para frente e para trás.

Já a síndrome de Down, conforme o Movimento Down, é causada pela presença de três cromossomos 21 em todas ou na maior parte das células de um indivíduo. Isso ocorre na hora da concepção de uma criança. As pessoas com síndrome, ou trissomia do cromossomo 21, têm 47 cromossomos em suas células em vez de 46, como a maior parte da população. As crianças, os jovens e os adultos com down podem ter algumas características semelhantes e estar sujeitos a uma maior incidência de doenças, mas apresentam personalidades e características diferentes e únicas.

Texto: Gabriela Hautrive
reportagem@independente.com.br

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