Após 30 anos, mulher reencontra leiteiro e agradece pelas caronas até a escola no interior de Cruzeiro do Sul

Aline Elisabet Greef procurou Roque Fick (61) e fez uma homenagem pela ajuda no trajeto que recebia quando tinha apenas 6 anos de idade, em Linha Sítio


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Foto: Divulgação

Um ato de carinho e um exemplo de gratidão, essa foi a ação de Aline Elisabet Greef, que após 30 anos, resolveu procurar o leiteiro que dava carona a ela e outras crianças em 1991 na localidade de Linha Sítio, no interior de Cruzeiro do Sul, para irem até a escola. O “tio” da carona é Roque Fick (61), que ainda reside no município, mas agora na Linha Primavera. Já Aline atualmente mora em Teutônia. O reencontro entre os dois aconteceu no último sábado (26) após a memória da menina, lá do passado, decidiu procurar o homem que facilitou o caminho dela e de outras crianças até a escola durante muito tempo.

Quis o destino que Aline se tornasse professora e há poucos dias, enquanto conversava com alguns alunos, sobre como eles chegavam até a escola, ouviu muitos relatos e conversas. “Isso me fez pensar: como posso pedir pra que meus alunos sejam gratos se eu nunca agradeci quem tanto me ajudou”, conta. A partir disso, fez um relato no Facebook pedindo ajuda pra encontrar o leiteiro. “Minha surpresa foi enorme. Muitas pessoas comentando sobre os leiteiros de diferentes localidades, de quanto eram importantes, para levar pra cidade, trazer insumos, medicamentos, bilhetes, enfim, uma infinidade de atribuições a esses homens”, lembra.

E foi em um dos comentários que apareceu o número do telefone de seu Roque Fick. “Eu liguei e revivi um momento muito especial, falei com ele”, conta. O ato do homem que levava as crianças para estudar, hoje representa muito mais que uma simples carona, segundo Aline. “Ele me ensinou a chegar lá, a não desistir, a pedir ajuda. Quantas vezes pensamos estar sozinhos, e não percebemos os Roques da vida espalhados por aí”, pondera. Com esse sentimento de gratidão, ela resolveu procurá-lo e agradecer pessoalmente. “Foi mágico, fiquei feliz e ele reconheceu o bem que fez a mim e tantas outras famílias”.

No encontro lembraram de vários momentos vivenciados naquela época. “Inclusive, que sempre puxava conversa comigo e eu não dava bola. Ele que acha, eu dava muita bola, eu entendi tudo que ele me ensinou”, relata. O tempo passou, mas a criança de 1991, que se tornou uma mulher e professora, diz que o leiteiro que dava carona é a mesma pessoa, com o mesmo coração. “Só algumas rugas apareceram, o Roque é o mesmo, um grande homem e eu, continuo a luta pela educação”, destaca.

Infância e o trajeto para a escola

A professora conta que seu pai, Brenno Greef, era caminhoneiro, assim como Roque Fick. Então acredita que tenha no sangue o amor pela profissão. “Estes homens e mulheres precisam saber da importância que tem. Vai muito além da carga. Eles transportam inclusive sonhos. A homenagem para o Roque é também para todos que transportam mais que cargas”, ressalta.

Ela e sua família, em 1991, se mudaram de Lajeado para o interior de Cruzeiro do Sul, na Linha Sítio. Lá seus pais trabalharam com a criação de vacas para a produção de leite. “Quando mudamos, fomos conhecer a escola e meu pai ficou muito preocupado em como eu chegaria lá todos os dias. A estrada era longa, cerca de dez quilômetros e o atalho que existia era no meio do mato”.

Um dia, o leiteiro chegou para recolher leite e o pai de Aline conversou com ele sobre alguma possibilidade para ir até a escola, mas não havia, o trajeto era aquele mesmo. “Meu pai não foi homem que estudou muito, mas prezava pela minha educação. Algumas vezes, me carregava nas costas para eu não sujar os sapatos, pelo atalho de terra. E sempre dizia: o estudo ninguém te tira filha. Foi assim, alguns meses, até o Roque se oferecer pra me deixar na porta da escola”, lembra Aline.

Então, a relação de gratidão começou. A professora conta que era a primeira a subir, pelas 5h30 já estava lá, ao lado do motorista. “Assim que deixamos a minha casa, o Roque ia coletando leite e crianças. Quando a cabine enchia, subiam os demais na carroceria e se seguravam nos tarros de leite. Quando chovia, todos amassados ao lado dele. Conforme passávamos pelas escolas, desciam as crianças”, conta. Até o nome dos educandários em que passavam está presente na memória de Aline até hoje. “Ele passava na escola Rambo Filho, São Miguel e depois São Felipe, onde eu, a última, descia. Foram anos especiais. Minha primeira e segunda série. Eu depois, passei a estudar de tarde, mas daí já estava maior e podia passar sozinha pela roça do atalho”, finaliza.

Texto: Gabriela Hautrive
reportagem@independente.com.br

 

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