As famílias precisam retomar momentos de proximidade e convívio afetivo

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Bigstock

Nos últimos tempos, a casa anda silenciosa. Se não fossem os latidos dos cachorros, os miados do gato, ou o toque da campainha avisando a chegada do carteiro, ela passaria boa parte do dia quieta. Acredito que, em alguma medida, situação semelhante pode estar acontecendo na sua família também. Em tempos de pandemia, além do distanciamento social, corremos o risco de, simultaneamente, estarmos em isolamento familiar. Cada pessoa, de posse do seu celular, fica navegando no seu próprio mundo, criando proximidade afetiva virtual com pessoas de todas as partes do planeta, ficando estranha daqueles que habitam o mesmo ambiente. Sim, as relações hoje são mediadas por dispositivos eletrônicos, que nos alcançam infinitas possibilidades de contato, o que pode ser muito interessante, ao mesmo tempo em que, no exagero do uso, é capaz de criar sequelas ainda não previstas na sua totalidade por estudiosos da área psíquica.


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Nesse sentido, outro dia, li um texto muito interessante, de autoria atribuída à psicopedagoga Cassiana Tardivo, onde ela fala que perdemos os nossos filhos para o quarto. Compartilho aqui para que, juntos, possamos pensar nas colocações que ela fez, baseadas no seu trabalho junto aos seus pacientes.

“Antes perdíamos filhos nos rios, nos matos, nos mares, hoje, temos perdido eles dentro do quarto. Quando brincavam nos quintais, ouvíamos suas vozes, escutávamos suas fantasias e, ao ouvi-los, mesmo à distância, sabíamos o que se passava em suas mentes.

Quando entravam em casa, não existia uma TV em cada quarto, nem dispositivos eletrônicos em suas mãos.

Hoje, não escutamos suas vozes, não ouvimos seus pensamentos e fantasias. As crianças estão ali, dentro de seus quartos, e, por isso, pensamos estarem em segurança.

Quanta imaturidade a nossa. Agora ficam com seus fones de ouvido, trancados em seus mundos, construindo seus saberes sem que saibamos o que é. Perdem, literalmente, a vida, ainda vivos em corpos, mas mortos em seus relacionamentos com seus pais, fechados num mundo global de tanta informação e estímulos, de modismos passageiros, que, em nada, contribuem para a formação de crianças seguras e fortes para tomarem decisões moralmente corretas e de acordo com seus valores familiares.

Dentro de seus quartos, perdemos os filhos pois não sabem nem mais quem são ou o que pensam suas famílias, já estão mortos de sua identidade familiar. Tornam-se uma mistura de tudo aquilo pelo qual eles têm sido influenciados e os pais já nem sempre sabem o que seus filhos são.

Convido você a tirar seu filho do quarto, do tablet, do celular, do computador, do fone de ouvido, convido você a comprar jogos de mesa, tabuleiros e ter filhos na sala, ao seu lado por, no mínimo, dois dias estabelecidos na sua semana, à noite (além do sábado e domingo). E, jogue, divirta-se com eles, escute as vozes, as falas, os pensamentos e tenha grandes oportunidades de tê-los vivos, “dando trabalho”, e, que eles aprendam a viver em família, se sintam pertencentes no lar para que não precisem se aventurar nessas brincadeiras malucas para se sentirem alguém ou terem um pouco de adrenalina que antes tinham com as brincadeiras no quintal “.

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