As lembranças do passado são testemunhas de quem já fomos um dia

Confira o comentário da psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Imagem ilustrativa (Foto: Divulgação)

Meu primo Rafael Lenhard criou um grupo no Facebook intitulado “Fotos e Memórias de Santa Clara do Sul”, destinado àqueles que têm ligação com esse município. Já são mais de mil pessoas fazendo parte dessa comunidade virtual e que, assim como eu, devem esperar pela hora em que meu primo atualiza a página. A maior curiosidade refere-se a imagens de antigamente, especialmente retratos de pessoas. Se não tem legenda, há uma adivinhação coletiva de quem pode ser o sujeito que aparece na foto. Quando Rafael criou o grupo, em fevereiro passado, ele já tinha coletado material para compartilhar. Contudo, dia após dia, os participantes têm sido assíduos no fornecimento de fotos e informações. Ninguém se intimida para dar palpites. Outro dia, na dúvida de quem poderia ser o retratado, teve até uma espécie de acareação de imagens.


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Tenho observado que o grupo movimenta gente de todas as faixas etárias e, também, de diversos cantos do Brasil. São pessoas que nasceram em Santa Clara do Sul, e que hoje moram em outros Estados, ou que possuem parentes originários da “Cidade das Flores”. Cada qual com os seus laços afetivos singulares, alimenta em comum com os demais participantes o desejo de encontrar, nessa seção nostálgica, um sentimento de pertencimento e de permanência. Outro dia, eu mesma me peguei olhando as fotos enquanto lembrava de minha mãe. Ela, que era natural de Santa Clara do Sul, falava pra gente das famílias com que teve contato na infância e adolescência. Referia os vizinhos, os colegas de aula, as moças mais bonitas da cidade e as famílias que tinham filhos consagrados à vida religiosa; os profissionais da época: a costureira, o alfaiate, o sapateiro, o dentista, o médico, as parteiras e os professores. Vejo as fotos, sinto um pouco de minha mãe nelas, assim como há algo de mim em cada fisionomia que aparece na tela. É como se esse resgate fotogênico completasse o álbum de figurinhas da minha história de vida.

Aliás, li um estudo, publicado na página da revista Super Interessante, da editora Abril, que fala sobre os benefícios da nostalgia. A publicação é de 2018 e reforça que “ser nostálgico não é estar preso no passado. Pelo contrário: isso aumenta sua vitalidade e deixa você mais preparado para lidar com o presente e com o futuro”. Por isso, voltar ao passado, através dessas fotos, é como espiar pelo retrovisor do carro e ver todas essas pessoas acenando. É como se elas dissessem que fazem parte do caminho que percorremos até aqui. Esse olhar pelo espelho do carro da existência, em alguma medida, também significa vida eterna para aqueles que já partiram deste mundo.

“Será que se um pássaro pintasse, não seria deixando cair suas penas, uma serpente suas escamas, uma árvore se desfolhar e fazer chover suas folhas? (Jacques Lacan). Então, se um homem pintasse quem é, não seria deixando registrada sua história de vida através daquilo que ele viveu?

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