Cientista britânico defensor da quarentena renuncia após violar isolamento para receber namorada

Mulher foi duas vezes à casa do epidemiologista, que defendia medidas de restrição


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O epidemiologista Neil Ferguson, que anunciou sua renúncia nesta terça (5) (Foto: Divulgação)

Um dos principais cientistas britânicos a defender quarentenas como política contra o coronavírus, Neil Ferguson, 52, renunciou nesta terça (5) a seu posto de conselheiro do governo do Reino Unido por ter violado a regra de isolamento.

Por duas vezes, ele recebeu em sua casa uma mulher que não mora com ele, segundo reportagem do jornal britânico The Daily Telegraph.

O Telegraph afirmou que Adriana Staats, que vive com o marido e dois filhos em outra região de Londres, passou duas noites na casa de Ferguson. Ela não quis falar com o jornal, mas a publicação afirma que, a amigos, disse que as críticas são hipócritas, porque seu casamento é aberto e ela considera as duas residências como sua casa.

Ao Telegraph, Ferguson disse que renunciou porque “cometeu um erro de julgamento e de ação”.

“Agi na crença de que estava imune, tendo recebido diagnóstico de coronavírus e depois me isolado completamente por quase duas semanas após o desenvolvimento dos sintomas”, afirmou o epidemiologista.

Em 18 de março, ele escreveu em uma rede social que estava se isolando depois de apresentar tosse e febre. A primeira visita de Adriana ocorreu 12 dias depois, segundo o jornal. A segunda foi em 8 de abril, quando, de acordo com o Telegraph, Adriana “disse a amigos que suspeitava que seu marido, um acadêmico de 30 e poucos anos, apresentasse sintomas”.

Um dos mais respeitados formuladores de modelos matemáticos para prever a evolução de epidemias, Ferguson chefia a equipe de resposta à pandemia do Imperial College de Londres e coordenou o trabalho que, em março, previu que as mortes por Covid-19 (doença causada pelo coronavírus) poderiam chegar a 250 mil se não fosse adotado um isolamento amplo.

O premiê britânico, Boris Johnson, anunciou medidas mais duras de combate à pandemia no mesmo dia em que esse estudo foi divulgado, 16 de março, e implantou o “lockdown” no dia 23.

No comunicado de renúncia, Ferguson disse lamentar que suas ações pudessem passar mensagens dúbias em relação à necessidade de distanciamento físico.

“A orientação do governo é inequívoca e existe para proteger todos nós”, afirmou.

Além de participar do Sage (Grupo Consultivo Científico para Emergências), do governo britânico, Ferguson coordena previsões matemáticas que são referência para decisões da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de governos em surtos como o de gripe suína, em 2009 no Reino Unido, o de Mers, em 2012, e a epidemia de ebola na África Ocidental, em 2016.

Em abril, a violação às regras de isolamento já havia levado a outra renúncia no Reino Unido, dessa vez na Escócia. A diretora médica do país, Catherine Calderwood, deixou o cargo depois que a imprensa divulgou que ela fizera duas viagens à sua casa de praia em Earlsferry, a mais de uma hora de Edimburgo, onde mora.

Fonte: Folha de SP

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