Com restrições da pandemia, aumento da violência contra a mulher é fenômeno mundial

Quarta-feira (25) é Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, mas o panorama em escala global é desolador.


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Manifestante é presa durante protesto por morte de vítima de estupro na Índia, em 30 de setembro (Foto: Anushree Fadnavis/Reuters)

Não há país que escape da pandemia de coronavírus, assim como nenhum ficou à margem da explosão de agressões machistas que veio com a doença, um flagelo que se agravou em todo o mundo devido às restrições impostas pela covid-19.

Na próxima quarta-feira (25) se celebra o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres e o panorama em escala global é desolador.

Na Nigéria e na África do Sul, os estupros registraram forte alta, no Peru aumentaram os desaparecimentos de mulheres, enquanto no Brasil e México os feminicídios estão em alta.
Na Europa, as associações que ajudam as mulheres vítimas de violência estão sobrecarregadas.

De acordo com dados da ONU Mulheres divulgados no fim de setembro, o confinamento levou a aumentos das denúncias ou ligações para as autoridades por violência doméstica de 30% no Chipre, 33% em Singapura, 30% na França e 25% na Argentina.

Em todos os países, obrigados a decretar medidas de restrições aos deslocamentos para frear a propagação do vírus, muitas mulheres e crianças se viram presas em residências pouco seguras.

“A casa é o local mais perigoso para as mulheres”, recordaram em abril 30 associações marroquinas, que exigiram do governo uma “resposta urgente”.

‘Presa em casa’

Heena, uma cozinheira de 33 anos que mora em Mumbai (Índia), afirma que se sentiu “presa em sua própria casa”, com um marido desempregado, consumidor de drogas e violento.

“Durante o confinamento, ele passava o dia no telefone, jogando, me batendo ou abusando de mim”, contou à AFP.

Em 15 de agosto, o marido a agrediu de maneira ainda mais violenta que o habitual, diante do filho de sete anos, e a expulsou de casa durante a madrugada.

“Eu não tinha para onde ir. Eu mal conseguia mover meu corpo – ele me bateu muito”, relata a mulher, que não se arriscou a apresentar uma denúncia na polícia por medo de ser mal recebida.

Atualmente ela luta para voltar a ver o filho, mas “os tribunais não estão funcionando de maneira completa por causa da Covid-19”, lamenta a indiana, que não encontra o filho há quatro meses.

Sem refúgio

Em todo o mundo, com as instituições funcionando de modo parcial, os fechamentos de empresas e de espaços culturais e esportivos, além das escolas, as vítimas ficaram sem espaços de refúgio, ao que se soma o impacto econômico do vírus em muitas famílias.

“Estamos assistindo a uma perigosa degradação da situação socioeconômica das famílias após o confinamento, com mais situações pobreza, o que pode comportar reações violentas”, destaca Hanaa Edwar, da Rede de Mulheres Iraquianas, que há 10 anos pede uma lei contra a violência doméstica no país.

O Brasil registrou 648 feminicídios no primeiro semestre de 2020, 1,9% a mais que no mesmo período de 2019, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O governo criou uma campanha para estimular as mulheres agredidas a denunciar, mas, segundo o FBSP, as medidas para acompanhas as vítimas continuam sendo “insuficientes”.

Medidas de apoio

Mundialmente, apenas um país em cada oito adotou medidas para atenuar os efeitos da pandemia em mulheres e crianças, afirma a ONU Mulheres.

Na Espanha, as vítimas conseguiram alertar as autoridades de forma discreta com o código “Máscara 19” nas farmácias, um dos poucos estabelecimentos que permaneceram abertos durante o confinamento em vários países.

Na França foram criados pontos de contato, administrados por associações, em supermercados.

“As mulheres que nos procuraram estavam em situações que se aproximavam do insuportável, perigosas. O confinamento teve um efeito tabu sobre o fenômeno (da violência contra a mulher)”, afirma Sophie Cartron, diretora adjunta de uma associação que atuou em um centro comercial da região de Paris.

Mas este ano, devido às restrições sanitárias, a tradicional mobilização de 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, é incerta.

Apesar das dificuldades, recentemente foram organizadas manifestações pelos direitos das mulheres na Namíbia, Libéria, Costa Rica, Guatemala ou Romênia.

“Não poderemos nos manifestar para expressar nossa revolta ou caminhar para lutar juntas, mas pelo menos faremos com nossas vozes sejam ouvidas, virtual e visualmente”, afirmou em Paris o movimento feminista Planning Familial.

“Para onde você olha, há desigualdades. No emprego, na diferença salarial, na violência sexista. Tudo aumenta ainda mais em tempos de covid”, denuncia Tamara Mathebula, da Comissão pela Igualdade de Sexos da África do Sul.

A longo prazo, as consequências do coronavírus nos direitos das mulheres podem ser muito graves.

Em julho, a ONU advertiu que seis meses de restrições sanitárias poderiam ocasionar 31 milhões de casos adicionais de violência sexista no mundo, sete milhões de gravidezes não desejadas, além de colocar em risco a luta contra a mutilação genital feminina e os casamentos arranjados.

Fonte: G1

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