Comemos para silenciar o estômago, mimar o apetite e lidar com as nossas emoções

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Reprodução / Shutterstoc

Ontem, segunda-feira (12), para celebrar o Dia das Crianças, visitamos um espaço onde a gente pode fazer piquenique ao ar livre. O local oferece uma cesta com alimentos possíveis de serem degustados sem necessidade de uso de louças, assim como também alcança toalha para estender no chão, almofadas e, para quem quiser, colchonetes. Na embalagem dos utensílios, um texto avisa que tudo foi cuidadosamente higienizado, oferecendo alguma garantia de segurança preventiva em relação à Covid.


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Todos os produtos de excelente qualidade, o que poderia justificar o valor do pedido. Contudo, se comprados no mercado, totalizariam menos da metade do investimento. O que a gente paga não é apenas a comida. A gente paga pelo significado que os alimentos têm naquele lugar. Nós comemos para silenciar o estômago, mimar o apetite e lidar com as nossas emoções.

Nesse sentido, li um texto muito interessante, escrito pelo psicanalista gaúcho Mario Corso. Ele reflete sobre o sentido que damos para a comida desde os primeiros anos de vida dos nossos pequenos, quando, por exemplo, oferecemos alimentos que vêm acompanhados de brinquedos. Nesse caso, muitas vezes, a criança nem quer a comida. A graça está no brinquedo. Ou seja, há um algo a mais, uma tentativa de alegrar e de satisfazer.

Corso então diz que “muitos pais se revoltam com essa artimanha. Não são tolos, sabem que pagam caro pelo brinde, um ônus extra desnecessário. Resmungar pelo gasto é válido, mas a questão tem outra volta. Melhor é se perguntar pelo entusiasmo das crianças. (…) A resposta é que o brinde junto com a comida dilui a importância da própria comida. O brinde demonstra que a pulsão oral não satisfaz por completo. É preciso algo a mais, algo que complemente o que a comida não entrega”.

Para o psicanalista, “a alta gastronomia vai nesta direção. Uma comida enfeitada, refinada, com mais discurso do que substância, diz o mesmo: o que você engole não te satisfará, precisas de algo mais. O contraexemplo está no sobrepeso. Pessoas que sofrem com isso, entre outros fatores, são aquelas que acreditam que a comida deveria satisfazer em si”.

(…) Portanto, toda dita “frescura” que acompanha a comida é uma maneira de domar o excesso que a pulsão oral (motivação interna para alcançar um objetivo específico) pode desencadear. “Quanto mais firulas, quanto mais rituais, menos calorias ingeridas, e mais satisfação no ato de comer”.

Por Dirce Becker Delwing
Fonte: Mário Corso/GZH

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