Comunidade quilombola de Lajeado sofre com a pandemia e pede ajuda

Atividades foram suspensas e famílias têm dificuldades para alimentar os filhos.


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Ivani, Camila e Khauane representam três gerações em meio às ruínas do quilombo, na mata (Foto: Natalia Ribeiro)

A Comunidade Quilombola Unidos do Lajeado, firmada no Bairro Planalto, tem uma luta constante para resgatar e manter viva a cultura dos africanos que desembarcaram no Brasil entre os séculos 17 e 18, vindos de diferentes pontos do continente africano, na condição de escravos. Além da realidade que já enfrentavam, agora eles tiveram as atividades prejudicadas pela pandemia da Covid-19. As necessidades são básicas.


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O grupo tem cerca de 240 pessoas, representadas em 120 famílias. Foi realizada uma triagem para verificar as demandas urgentes. Alguns deles receberam auxílio emergencial do governo federal. Ao todo, sete famílias, ou 24 pessoas, são as que mais dependem de atos de solidariedade.

Uma das representantes do quilombo de Lajeado, Camila da Silva Marques, de 35 anos, conta que “alguns conseguem se sustentar, mas tem outros que não conseguem. Estamos tentando fazer o máximo para que pelo menos as crianças possam comer”.

A preocupação é constante. Antes da pandemia eles faziam palestras em escolas e entidades, contando as histórias dos negros e os seus costumes. As atividades rendiam, em especial, doações de alimentos. O cultivo de plantas, frutas, legumes e verduras, herdado dos antepassados, também servia como moeda de troca. Costumes como a benzedura igualmente traziam mantimentos e recursos para a comunidade.

Neta de escravo, Ivani da Silva, 54 anos, relata que “estamos sem saber o que fazer. Tenho plantação de chás e ensino as pessoas a utilizarem. Ajudo com o que sei, mas agora está difícil”. Ela é benzedeira e teve as atividades praticamente suspensas por conta do temor das pessoas em manter contato e serem contaminadas pela Covid-19.

Nataniele da Silva improvisa com lonas após ter telhado da casa destruído em temporais recentes (Foto: Natalia Ribeiro)

Ivani mora numa casa simples, que precisa de reparos. Ela divide o terreno com a filha Nataniele da Silva, 26, que tem quatro filhos. O mais novo, Heitor, completa um mês de vida nesta terça-feira (1º). A jovem não sabia que estava grávida. Descobriu horas antes do parto, ao procurar atendimento médico por conta de dores abdominais. Faltam utensílios do dia a dia e principalmente roupas para o bebê.

O espaço em que Nataniele reside foi fortemente atingido pelas chuvas e temporais do mês de julho. Ela improvisa para ficar com as crianças em um ambiente em que a chuva não seja insistente. Há rachaduras nas paredes, o que a preocupa. A jovem pede a colaboração com telhas, se possível, para conseguir fechar os buracos.

O quilombo

Há mais de três décadas Ivani mora no mesmo endereço, a Rua Etwino Theobaldo Thomas, no Bairro Planalto, em Lajeado. A via reúne a maior parte dos integrantes da comunidade quilombola, que, há três anos, tem o status reconhecido pela Fundação Palmares. Isso quer dizer que é fruto de escravos e escravas.

A mulher tem vivas as lembranças do avô Geraldo Theobaldo da Silva, batizado, de maneira informal, com o nome da fazenda em que nasceu. O antigo local fica em terras que hoje pertencem ao município de Taquara, na Região Metropolitana de Porto Alegre. “Meu avô nasceu escravo e morreu escravo. Com 5 anos a minha avó o colocou na estrada para fugir da escravidão. Ele correu por 10 anos, na mata. Aprendeu a viver e se alimentar com as plantas, flores e com as ervas medicinais”.

Com o antecessor ela aprendeu o poder das plantas. Também as histórias de luta do povo negro. Sua filha Camila, que busca manter vivas as memórias, garante que “se não fossem o meu bisavô e o meu avô não teríamos mais esclarecimentos sobre a nossa história, da nossa etnia e desta terra”. A jovem lembra que entre os anos de 1778 e 1802 existiam fazendas, anteriores à criação do município de Lajeado, com pelo menos 300 moradores. Eram negros escravos e capitães do mato.

Buscando refúgio, esses negros foram para um espaço hoje conhecido como Distrito de Palmas, em Arroio do Meio. Lá começaram a se estabelecer, derivando, mais tarde, para o Bairro Planalto. Na mata próxima das casas, em Lajeado, há ruínas de construções do século 18, nas quais eles se esconderam. Muitos eram procurados por serem escravos fujões. A comunidade quilombola atrela o crescimento de Lajeado ao trabalho dos negros, que foram os primeiros a construírem a história local.

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) da Univates, Karen Daniela Pires pesquisa a história dos negros no Vale do Taquari. Para ela, os quilombos são espaços de resistência. Mesmo com a abolição da escravatura no Brasil, lacunas ficaram abertas, na sua avaliação. “Ao serem libertos, os negros escravizados, em 1888, não vão ter nenhum projeto ou preocupação de serem inseridos na sociedade brasileira”.


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Para Karen, a atual realidade da comunidade de Lajeado conversa com a herança recebida do tempo, em uma história que precisa de novos e diferentes capítulos. “As dificuldades que hoje são sentidas pelas comunidades quilombolas são um legado do passado escravista. Temos que pensar nas comunidades como resistência, como continuidade do legado cultural, mas pensarmos, também, que o país tem uma dívida com a questão dos direitos que essas pessoas não tiveram”, reflete. Há dois quilombos na região: Unidos do Lajeado e São Roque, em Arroio do Meio.

Como ajudar

Interessados em colaborar com doações de alimentos, roupas e materiais de construção podem fazer contato pela página Quilombo Lajeado no Facebook ou com Camila da Silva Marques, pelo telefone (54) 9 9184-1450.

Texto: Natalia Ribeiro
jornalismo@independente.com.br

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