Conservação dos solos e a fome

Leia a coluna do engenheiro agrônomo Nilo Cortez


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Dia 15 de abril é dedicado ao solo, data comemorada mundialmente para lembrar sua importância. Nosso planeta tem 30% de terra (solo) e 70% de água salgada e doce. Vivemos em um pedacinho de chão.

E desta área de terra cerca de 30% são consideradas áreas de agricultura e pecuária. E pior ainda, estes 23% já estão com perdas da biodiversidade. E estamos chegando no limite de seu uso para alimentar a humanidade. As condições ambientais para avançar em novas áreas são cada vez mais limitadas e de alto custo. Áreas novas em alguns países africanos, mas, dificultados por condições políticas ou tribais. E no Brasil ainda existem áreas a serem exploradas sem agressão ambiental. Estudos da EMBRAPA mostram isto. Fica bem claro o uso das tecnologias de conservação de solo. E ainda podemos crescer na produtividade. Porque estão de olho no Brasil? Não é por nada.

Conhecemos várias tecnologias com bons resultados e bons exemplos acontecendo, mas, reconheço que temos de melhorar.

Por outro lado, batemos a cada ano o recorde de produção e exportação. Este ano o preço está ótimo, mas o custo de produção é assustador. Calma veremos como fica a próxima safra.

Duro de entender quando avaliamos as estatísticas de alimentação deste Brasil com 213 milhões de bocas. Cerca de 117 milhões se encontram em “insegurança alimentar”: não sabem se vão e ou o que comerão amanhã. A pandemia veio piorar a situação tirando os ganhos de muitas pessoas que perderam seu emprego. Ou simplesmente a sua atividade desapareceu, quebrou. Auxílios governamentais apenas ajudam um pouquinho, precisamos mais do que isto.

No ano passado a fome atingiu 19 milhões (9%) dos brasileiros. No RS não é diferente os bolsões de miséria em tornos de centros maiores e região metropolitana infelizmente crescem. Aqui no Vale, guardando as proporções, isto está acontecendo. Dados publicados neste final de semana (A Hora) informam que Lajeado tem 5474 famílias em situação de vulnerabilidade; 1539 em extrema pobreza; 402 em situação de pobreza e 1238 famílias beneficiadas com bolsa família. Na extrema pobreza consideram ganho mensal de R$89,00 (2,97 por dia). Números do Ministério da Cidadania.

Na rua onde moro passam cerca de 5 catadores de lixo reciclável, aliás que fazem um bom trabalho, aproveitando o que é possível. Um deles me disse que ganha R$3,70 por quilo de latinha. E que a pandemia diminuiu o valor que já foi um real a mais. Mais gente juntando menor preço. Vale para os outros materiais recicláveis. Compara isto com a extrema pobreza. E quantos não ajudam esta gente pelo menos separando o seu lixo para ser aproveitado. Viveria com R$2,97 por dia?

Quem alimenta a população brasileira são os agricultores familiares que trabalham nas pequenas propriedades. Produzem 65% a 70% dos alimentos básicos. Aproveitam o solo no limite com a mão de obra familiar. Sabem que diminuíram os recursos do PRONAF fonte dos principais financiamentos? Recursos estes fundamentais para produção de alimentos para a população.

O que pode ser feito com estes que estão na insegurança alimentar se ainda temos solo para produzir?

Valorização da agricultura familiar sem dúvida. E mais recentemente o crescimento da produção coletiva. Tem tido algum sucesso quando tem um líder que puxa. Aquele padrinho ou madrinha que abraça a causa. Ou uma empresa ou ONG séria que assume. Em escola quando um funcionário ou professora abraça dá certo.

Alguns modelos de cultivo mais “adiantados” já acontecem em vários locais do Brasil. É preciso políticas públicas para cultivar e que deem segurança jurídica para recursos e empréstimo de áreas. No R. Janeiro, São Paulo, Maranhão há financiamento para cultivar em baixo das redes de transmissão com certas limitações. Terrenos baldios cultivados pagam menos impostos. Áreas urbanas inclusive telhados têm possibilitado a agricultura e criação de abelhas. Há múltiplas possibilidades.

Aqui em Lajeado e arredores temos acompanhado alguns produtores rurais e urbanos que distribuem o que colhem a mais e colocam a disposição de quem precisa. Grande gesto que dou meus parabéns.

É um tema para ser debatido, achar as soluções possíveis e colocar em ação. Enquanto vamos lembrando o 15 de abril dedicado à conservação do solo que nos sustenta seja ele rural ou urbano. Temos espaço para avançar. Novos conceitos de solo urbano, hábitos alimentares, preparo de alimentos e valorização do solo.

Por Nilo Cortez


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