Críticas e desprezos potencializam o término de uma relação conjugal

Se tu divides a vida com uma pessoa, não diminui ela nas conversas que tens com teus amigos


0
Foto: Ilustrativa

Na última sexta, estive em Porto Alegre visitando o médico oftalmologista Joaquim José Xavier. Foi um reencontro. Há quase 50 anos, ele fez uma cirurgia de correção de estrabismo nos meus olhos. Minha família não podia pagar pelas despesas, então, ele realizou o procedimento sem custos. Há alguns anos, procurava por ele, e, recentemente, consegui o atual endereço. Dr. Joaquim está com 76 anos de idade e segue atendendo em sua clínica, que fica defronte ao hospital Santa Casa.

Como eu tinha memórias muito vagas da época da cirurgia e ele pouco se lembrava de mim, tudo soava à novidade e exigiu que a gente se apresentasse um ao outro. E, como sempre acontece nessas devidas apresentações, num primeiro momento, a pessoa destaca aspectos da sua vida que considera relevantes, ou que enxerga em negrito, em destaque na sua história. Quando falou em si, Dr. Joaquim fez questão de mostrar o recorte de uma coluna do jornalista Paulo Sant’Ana, falecido em 2017.

O texto, publicado no jornal Zero Hora, no ano de 2006, fala da festa de recasamento do médico com a sua ex-esposa Débora. Depois de mais de 11 anos separados, Joaquim e Débora decidiram se casar novamente, com direito à cerimônia e promessas matrimoniais. Sant’ Ana escreve sobre esse reencontro conjugal e ressalta que os dois conseguiram manter o respeito um pelo outro, a ponto de não perderem o encanto e a admiração mútua no período em que estiveram separados.

Fiquei pensando que isso somente foi possível porque, quando decidiram se separar, não sobrepuseram os motivos que desencadearam o fim da relação às virtudes que enxergaram um no outro nos anos em que conviveram juntos.

O enredo serve como uma inspiração para a nossa vida amorosa, especialmente no quesito retidão com a pessoa que o outro é, na história de vida que ele tem. Se tu divides a vida com uma pessoa, não diminui ela nas conversas que tens com teus amigos. Não ridiculariza teu companheiro ou tua companheira nas rodas de conversa, nos locais que frequentas, nas jantas das quais participas. Se tu convives com a pessoa no cotidiano, se divides a cama com ela, quando constranges ela em público, não estarias revelando muito mais sobre ti do que sobre aquele de quem estás falando? Aqui cabe a famosa frase dita por Sigmund Freud: “Somos donos do que calamos e escravos do que falamos.”

Texto por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui