Depois da enchente, o recomeço de quem perdeu tudo nas águas do Taquari

Rua no Bairro Hidráulica tem famílias que salvaram apenas mudas de roupas.


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Diego Rupp conseguiu salvar alguns itens de cozinha (Foto: Natalia Ribeiro)

A maior enchente do Rio Taquari nos últimos 64 anos marcou a história do século XXI nos municípios banhados por ele. Também fez marcas na trajetória de quem sentiu na pele os danos causados pela cheia, que alcançou o seu pico na madrugada de quarta-feira (8), com 27 metros e 39 centímetros. A região teve um óbito, centenas de desabrigados e desalojados e perdas financeiras, que demorarão a serem repostas.


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Na Rua Raymundo Schmidt, no Bairro Hidráulica, em Lajeado, a comunidade foi surpreendida pela força das águas. Correnteza de 50 a até 60 quilômetros por hora, conforme um dos moradores. “Cenário de guerra”, como chamou Diego Simão Rupp. Ele mora no endereço há 35 anos e nunca havia visto algo assim.

É uma catástrofe. Não tem como definir o que foi. Na nossa comunidade todas as famílias perderam tudo. Desde alimentos a fraldas, foi tudo com a áqua”, conta. Abrigado no Parque do Imigrante, ele fazia a limpeza da casa, ao lado da irmã Elma, na tarde desta sexta-feira (10). A casa onde ele mora é a primeira ao lado da encosta do rio. Não vou a sua primeira cheia, mas a maior de todas: 60 centímetros de altura na casa.

Tudo o que estava na residência de Rupp foi levado. “Na minha casa não existe geladeira, nem fogão, nada. Tudo se tornou o rio. A correnteza foi quebrando tudo o que nós tínhamos”, lembra ele. A rua tem pelo menos 20 residência e todas sofreram algum dano. As mais próximas do rio tiveram os maiores problemas. Nas primeiras, quase coladas à Rua Bento Rosa, a agressividade foi menor, mas não poupou os moradores de deixarem os imóveis. Teve muro destruído e casa que perdeu pedaços.

Teve, também, uma empresa prejudicada. Fabielle Dorneles, 26 anos, e o marido trabalham na casa em que vivem. Eles têm uma empresa de refrigeração. É o sustento e a única renda da família, que conta, ainda, com um bebê de 14 meses. “Perdemos tudo. Não conseguimos salvar nada. Tanto na empresa quanto casa. Não temos nada”, relata.

Empresa de Fabielle teve geladeiras e máquinas de lavar de clientes carregadas pela água (Foto: Natalia Ribeiro)

A jovem mora em Lajeado há quatro anos, dois deles na Rua Raymundo Schmidt. Foi acolhida, junto do marido e do filho, por amigos. “Consegui um colchão e é o que a gente tem para passar a noite. Vamos limpar a casa, colocar o colchão e ficar lá”, fala.

Na opinião dos moradores, faltou auxílio no momento de maior desespero, em que a água subia e tomava conta da rua apertada, em que um carro passa a cada vez. Eles dizem que tentaram falar com a Defesa Civil e com os bombeiros, mas que não conseguiram ajuda. “Amigos, pessoal da rua, tinham um caico e nos ajudaram a sair. Ninguém entrou, ninguém veio nos ajudar. Sai com a água no pescoço. Se não fosse pelos vizinhos eu não sei o que seria”, lembra Fabielle.

O Vale do Taquari e o município de São Sebastião do Caí estão entre os locais mais atingidos e prejudicados pelas chuvas dos últimos dias no Rio Grande do Sul. Tanto é que o governador Eduardo Leite sobrevoou as áreas nesta sexta-feira. Há a expectativa de destinação de recursos para a recuperação e auxílio às famílias.

Texto: Natalia Ribeiro

jornalismo@independente.com.br

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