A tecnologia nunca esteve tão em evidência na sétima arte antes da impactante chegada de Black Mirror, série britânica que relata em seu roteiro uma distopia tecnológica. Uma bela crítica às tendências comportamentais da sociedade, rodeada por smartphones, tablets, redes sociais e jogos de enigmas psicológicos. Nada foge de uma realidade palpável, nada mais é, em Black Mirror, que uma previsão do futuro com base em tudo que estamos experienciando nos dias atuais.

Dentre meu círculo de amizades, que inclui uma faixa etária variante, mais precisamente entre os 18 e 25 anos, percebe-se a discussão e o impacto causado pela proposta de futuro da série. Mas bem, contar detalhes da mesma a quem ainda não assistiu, não é legal. Por isso, a questão aqui ficará a cargo do nosso alcance de entendimento entre o agora e o que poderá vir, a partir do que Black Mirror explicita.

No meu círculo, sem generalizar, a rotina diária das pessoas fica cada vez mais fácil de acompanhar, de detalhar, e de minuciosamente planejar um ataque. Vamos supor que eu seja um Serial Killer de pessoas indefesas. Certamente, escolheria minhas vítimas a dedo e as mataria com um propósito de moral. Antigamente, os serial killers precisavam sair de casa para acompanhar a rotina de seus alvos. Se disfarçavam sob a luz do sol, seguindo os passos, às escuras, para elaborar a melhor forma de produzir o ato final, o assassinato, a morte. Sabiam onde encontrar quem queriam, em qualquer horário. Sabiam onde trabalhavam, o que gostavam de fazer, reviravam latas de lixo para saber o que gostavam de comer e o que usavam diariamente, eram assassinos travestidos de detetives.

Supondo que eu seja um Serial Killer, para mim, os dias de hoje ficaram muito mais fáceis. Eu passei a fazer um bloco de anotações de todas as postagens via Instagram Stories (plataforma na qual a pessoa posta fotos com legendas, ou não, de momentos do seu dia) das minhas vítimas. Descobri quais são os restaurantes que elas frequentam, as músicas que elas gostam de ouvir, com quem elas estão, as festas que se fazem presentes, o humor delas quando o dia tem chuva ou sol e mais uma série de características que pude angariar nesses longos dias de investigação. E o melhor, com meu perfil falso que contém fotos de um homem que mora em Campinas, São Paulo, e que nem imagina ter sua memória fotográfica usada para este propósito. Mas escolhi bem o cara, já que é bonito e boa pinta, obviamente minha vítima aceitaria a solicitação para seguir. Já havia idealizado uma forma de ataque, à noite, sem ninguém por perto, sem vestígios. Foi quando fui surpreendido pela vulnerabilidade do meu alvo. Um “storie” que explicitava o fato de ele passar o final de semana de feriado sozinho em casa. A foto tratava-se de uma lista de afazeres domésticos deixada pelos pais, que incluía o item “não beber”, como bônus. Era o momento perfeito!

Para entender melhor sobre a série e sobre o contexto que ela explora, o parágrafo acima poderia ser, de uma forma mais elaborada, um dos episódios que compõe suas 3 temporadas. Para tudo que se faz para o bem, sempre há uma forma de se fazer para o mal. No mundo cibernético não é diferente, ou você não conhece o polêmico Baleia Azul (jogo psicológico de fases e de lavagem cerebral que sugere às pessoas o suicídio em seu último desafio) ?

Surge a pergunta sobre a aproximação entre as pessoas através das redes sociais, ou a perda de aproximação real. Será que aprendemos a nos desinibir com as redes sociais? Ou já eramos desinibidos mas nos sentíamos envergonhados de agir desta forma pessoalmente? Conhecemos todas as pessoas que nos seguem? Quem são nossos amigos no facebook? Certamente conhecemos todos, não é mesmo? Se não, acho melhor fazer uma limpa aos desconhecidos agora mesmo, pra não incorrer no risco de encontrar um serial killer no seu armário antes de deitar-se para dormir, com o propósito de matar para explicitar a vulnerabilidade das pessoas na internet. E antes de mais nada, assista Black Mirror.

Por Wallace Souza

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