É uma pena que sejamos tão desconfiados uns dos outros

Confira a reflexão da jornalista, psicóloga e psicanalista política Dirce Becker Delwing


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Caminhava no centro de Lajeado quando observei que um moço abordava as pessoas perguntando se poderia rezar por elas. Ninguém aceitava. Ou davam uma desculpa, ou ignoravam a abordagem. O rapaz não se intimidava, seguia na sua missão de encontrar alguém que estivesse disposto a aceitar a reza. Acredito que, diante de tantas falcatruas que acontecem todos os dias, a gente já elimina, de cara, qualquer proposta que ofereça um benefício porque sabe que, em seguida, virá uma contrapartida. Ou seja, você ficará com uma dívida. No caso da oração, bem possível, será assediado para comprar um livro, um pingente com imagem de santo, ou até mesmo uma caneta que teria sido abençoada em algum templo sagrado. E, você se sentirá constrangido em não ajudar já que aceitou a oferta. Se contribuir, talvez ficará indisposto. Afinal, poderá parecer muito mais um negócio do que um momento de evocação de bênçãos divinas.


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Quem de nós não tem algo para resolver? Um desejo não realizado, uma situação mal resolvida, um medo persistente? Nesse sentido, acredito verdadeiramente no poder da oração e na capacidade que temos de emanar as mais elevadas energias em benefício do próximo. Contudo, num mundo de tantos individualismos, causa estranhamento quando alguém que você nunca viu na vida se oferece para rezar por você. Tudo isso a céu aberto, em meio à movimentação da cidade.

Pensei em tudo isso antes de conversar com o rapaz, que também me abordou na calçada. Quando concordei que rezasse por mim, fechou os olhos e proferiu uma série de palavras bonitas. Não sei se pertence a uma igreja, a uma seita religiosa, se faz parte de uma congregação, se está nessa atividade por causa de um propósito de vida, ou se fez disso sua fonte de renda. Quem sabe, as duas coisas. Como ele lida com os inúmeros “Não’s” que recebe durante o dia? “As pessoas andam apressadas e distraídas, ou talvez não estejam num dia bom. Nunca insisto se a pessoa passa reto”. Por mais que seja tomado de boa intenção, sabe que deve ser cauteloso. Uma linha muito tênue separa espiritualidade de uma espécie de comercialização da reza.


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