Estudante da Univates analisa atuação dos fisioterapeutas em casos de violência contra a mulher no RS

Daniele Nervis, de Guaporé, recentemente defendeu seu Trabalho de Conclusão (TCC) no curso de Fisioterapia.


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A estudante Daniele Nervis, de Guaporé, recentemente defendeu seu Trabalho de Conclusão (TCC) no curso de Fisioterapia da Univates. O tema de seu estudo foi a atuação do fisioterapeuta na identificação e na tomada de decisão em situações de violência doméstica na Atenção Básica em municípios do Rio Grande do Sul.

Daniele explica que, a partir do estudo das respostas, emergiram categorias de análise sobre o conhecimento dos profissionais em relação à violência doméstica e, também, sobre a necessidade e a importância de abordar o tema ao longo da graduação. Além disso, com base no conteúdo das respostas dos 81 fisioterapeutas entrevistados, fica clara a relevância da atuação intersetorial e o quanto as políticas nacionais do Sistema Único de Saúde (SUS) apontam a necessidade do atendimento humanizado e do acolhimento realizado pelos profissionais com as pacientes.

Metodologia

A estudante explica que o tipo de análise que realizou possibilitou que os profissionais que em seus atendimentos já se depararam com casos de violência doméstica indicassem quais foram as medidas tomadas. “Assim, conseguimos contrapor o que foi feito nesses casos, o que fariam os fisioterapeutas que nunca identificaram essas situações e o que a literatura científica aponta como direcionamento”, revela Daniele.

Desenvolvido em etapas, o trabalho iniciou com a estudante realizando contato com mais de 200 fisioterapeutas atuantes no Rio Grande do Sul na área da Atenção Básica. Conforme os dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), esses profissionais trabalham com saúde da família.

Ao todo 81 fisioterapeutas de cidades do Vale do Taquari, do entorno e de outras regiões do Estado, como dos municípios de Rio Grande e Uruguaiana, participaram respondendo às perguntas da estudante enviadas por meio de questionário on-line.

Percepções

Para Daniele, ainda se discute pouco a atuação do fisioterapeuta no combate à violência contra a mulher. Essa é uma das considerações às quais chega ao concluir o TCC. “Também não temos tantos artigos que abordem de forma específica o tema da violência doméstica e fisioterapia”, conta. “Minha pesquisa veio com o intuito de olhar com integralidade para os usuários dos serviços públicos de saúde, um dos princípios do SUS”.

A estudante se diz surpresa com o aparente despreparo indicado pelos respondentes às questões do formulário, bem como o desconhecimento das diretrizes básicas dos SUS por parte dos profissionais sobre o que fazer nos casos em que a violência é suspeita ou confirmada. “Além disso, muitas falas dos fisioterapeutas trouxeram à tona o quanto ainda nossa profissão está atrelada à reabilitação, e não tanto ao quanto pode contribuir com seu trabalho social na atenção básica de saúde, em conjunto com outras equipes e serviços”, explica.

“O curso de Fisioterapia esteve, durante muito tempo, voltado apenas para a reabilitação de doenças”, complementa a orientadora de Daniele, professora doutora Magali Quevedo Grave. Atualmente os projetos pedagógicos contemplam o desenvolvimento de habilidades voltadas a ações de promoção da saúde e prevenção de agravos. “Nesse sentido, problematizar situações críticas, como é o caso da violência contra a mulher, durante a formação acadêmica possibilita ao futuro profissional se posicionar de forma ética e responsável na busca do melhor encaminhamento possível”.

A docente avalia o trabalho da estudante como extremamente pertinente. “Primeiro, pela incidência da violência doméstica contra mulheres, que aumentou com a pandemia, conforme estudos recentes. Segundo, além do tema da violência doméstica/familiar, os profissionais da saúde, nesse caso o fisioterapeuta, têm o compromisso de acolher as mulheres e não fechar os olhos à violência sofrida por elas”.

Para a docente, o trabalho da estudante é importante pois problematiza o processo de formação acadêmica dos profissionais em relação ao tema. “Essa temática não é abordada de forma transversal durante a graduação”. Magali defende que os resultados do estudo possam ser apropriados pelo serviço público para auxiliar no enfrentamento à violência contra a mulher, ampliando essa socialização por meio de cursos de qualificação e capacitação dos profissionais que na Atenção Básica atendem mulheres em situação de violência doméstica. Essa é uma das etapas seguintes do TCC.

O trabalho foi avaliado pelas professoras Lydia Koetz Jaeger, do curso de Fisioterapia, e Elisabete Cristina Barreto Müller, do curso de Direito. Ambas argumentam sobre a pertinência de discutir o tema. Para a professora Lydia, também coordenadora do curso de Fisioterapia da Univates, a pesquisa “nos convoca, enquanto professores, estudantes e profissionais da saúde, a refletir sobre uma problemática complexa que envolve diferentes setores da sociedade”.

Atuação em prol do enfrentamento à violência

A professora Elisabete Cristina Barreto Müller, delegada aposentada com atuação voltada ao enfrentamento da violência contra a mulher, observa a necessidade de discutir o tema em diferentes esferas sociais. Ela elenca algumas ações que acontecem na Univates. O Fórum Regional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, que já vai para a nona edição, um projeto de extensão específico, o Maria da Penha, e a adesão ao Movimento HeForShe são exemplos.

“Sem dúvida, face à complexidade do fenômeno, é indispensável a articulação entre os diversos saberes. Cada vez mais o assunto tem sido objeto de trabalhos de conclusão de diversos cursos de nossa Universidade”, ressalta. Para a professora, a violência contra a mulher precisa ser enfrentada de modo interdisciplinar e intersetorial, sendo a academia uma entidade que pode contribuir de forma efetiva e com impacto.

Lei

Uma lei recente, de nº 13.931, de dezembro de 2019, institui a notificação compulsória, em que obrigatoriamente os profissionais da saúde, ao saber da situação de violência, precisam notificar às autoridades policiais sempre que houver indícios ou confirmação de violência contra a mulher atendida em serviços de saúde públicos e privados. A estudante da Univates e as professoras envolvidas no na pesquisa defendem que é necessário divulgar a lei para torná-la de conhecimento de todos os profissionais atuantes nas diferentes áreas da saúde pública do Brasil. AI / GH

 

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