Família de Lajeado se recupera da Covid-19 após um mês na UTI

Mulher relata dificuldades enfrentadas por ela, pelo marido e sua mãe ao ter contraído a doença.


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Família prefere não ter a identidade divulgada (Foto: Ilustrativa/Pixabay)

O dia 19 de abril de 2020 está marcado na história de uma família lajeadense. Composta de cinco integrantes, teve três que sofreram uma mudança repentina e que certamente mudou o seu trajeto. Quase simultaneamente, os adultos foram internados com Covid-19 e levaram um mês para voltar a se encontrar. Já as crianças, duas, foram as únicas não atingidas pela doença. A ruptura mudou a forma como eles veem a vida, em especial depois de terem alta do Hospital Bruno Born (HBB), em Lajeado.


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Falta de ar recorrente e histórico de problema pulmonar fez com que a idosa, de 60 anos, avó materna das crianças, buscasse atendimento médico. Depois de algumas consultas pelos mesmos motivos ela foi levada pela filha única, em 19 de abril, até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), de Lajeado. Dali, partiu para o HBB. O que a filha não esperava era que também iria para o hospital, no mesmo dia, por conta do coronavírus. “Foi muito complicado. Essa doença não é brincadeira”, diz.

Hipertensa, a mulher tinha tosse e sentia cansaço, mas não imaginava que poderia ser Covid-19. A família não tem suspeitas da origem da infecção. Na UPA, foi medida a febre corporal e aplicado o oxímetro, para verificar o nível de oxigênio no sangue. A temperatura elevada e o baixo nível de oxigênio a levaram diretamente para a UTI montada no HBB para tratar a doença. Permaneceu no hospital por 22 dias, sendo que não recorda de boa parte do que aconteceu durante o tratamento, como conta.

“Quando eu acordei tive muitas alucinações. Eu não sabia onde estava. Achei que eu estava numa clínica. A minha mãe também. Quando acordou, não sabia onde estava. Acho que pelas medicações fortes que nos deram”. Do período da internação, 19 dias foram com uso de respirador. Ela recorda que precisou usar fraldas, assim como a mãe, e lembra de não ter controle sobre o próprio corpo. Não conseguia ficar de pé.

A idosa foi a que permaneceu mais tempo no hospital: 33 dias. Destes, apenas sete de internação, fora da UTI, quando começava a melhorar e não usava mais o respirador. A família chegou a ser informada de que ela tinha órgãos que, por vezes, não mostravam reação ao tratamento. A filha se encontrou na mesma situação em alguns momentos. Desde a última sexta-feira (22) a senhora está em casa, mas ainda não consegue conversar. Sente fraqueza na voz e cansaço no corpo. Mesmo assim, já é considerada recuperada, como os demais parentes.

Com mãe e filha, o primeiro teste já diagnosticou a presença do vírus. Já o marido teve um resultado negativo. Ele também foi atendido na UPA no dia 19 de abril. Como seguia com sintomas, voltou a buscar ajuda, mas via telefone. De ambulância o homem foi levado ao HBB dois dias depois, onde ficou até 3 de maio. Esteve quatro dias na UTI Covid e fez uso de oxigênio.

Solidariedade

Durante a enfermidade, a família contou com a ajuda de muitos amigos e parentes. A madrinha das crianças cuidou delas até que eles estivessem recuperados. “Um anjo, que é a dinda dos meus filhos, foi quem ficou com eles. Tenho muita gente na família e muitos amigos. Todos oraram e a dinda pegou porque eles estão mais acostumados com ela”, fala a mulher.

Orações e doações passaram a fazer parte do dia a dia da família. Mãe e filha usaram respirador durante quase toda a estadia no hospital, além das fraldas. Ficaram boa parte do tempo de bruços, por conta dos equipamentos. Quando recuperava a consciência, a mulher lembra de perguntar pela mãe. Temia perdê-la para a doença.

“Eu sou filha única, então pedi informações para a médica, que foi muito humana e foi atrás disso. A minha mãe estava na outra UTI, no hospital”. Os três adultos ficaram separados durante o tratamento. Quando voltou para casa, o homem teve de ficar oito dias longe dos filhos, cumprindo o período de quarentena. Depois pôde voltar a recebê-los no lar, por mais que parte da família ainda estivesse internada.

Antes do diagnóstico para a doença, todos já faziam isolamento domiciliar. Por isso não sabem como contraíram a doença. Para a mulher, que conversou com a Rádio Independente, está posto que a fé os ajudou a vencer a doença. “Passamos por uma luta muito difícil e eu jamais, pelo resto da minha vida, vou conseguir agradecer a Deus pela vitória que ele nos deu, devolvendo a vida a nós três”.

O retorno

O momento do reencontro com os filhos, um deles de colo, ainda emociona a mulher. Por meio de chamada de vídeo ela conversou com os dois e o marido quando saiu da UTI e foi para leito de internação. A alta foi no Dia das Mães, 10 de maio, quando ela celebrou com quem a esperava em casa. O dia, porém, não foi totalmente feliz. “Meu coração estava dividido, porque um pedaço meu ainda estava lá, que era a minha mãe. Eu até disse que o Dia das Mães seria quando ela estivesse em casa”, explica.

Para agradecer pela bênção alcançada e o retorno para o lar, assim como a recuperação, ela e a mãe pensam em cumprir promessas que foram feitas durante a internação. Os profissionais do HBB não deixaram de ser lembrados. Nesta terça-feira (26) a família vai presenteá-los com tortas. Uma forma de agradecer pelo atendimento e dedicação num dos momentos mais conturbados de suas vidas.

Texto: Natalia Ribeiro

jornalismo@independente.com.br

 

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