Fechamento de frigoríficos pode ocasionar perdas expressivas para os produtores do Vale do Taquari

Agricultores e sindicatos se mostram preocupados com o pedido do Ministério Público para a suspensão temporária da Minuano e da BRF em Lajeado.


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Cada lote a ser abatido tem, em média, cem mil frangos (Foto: Natalia Ribeiro)

A possibilidade da suspensão das atividades dos dois frigoríficos de Lajeado, por terem registrado casos da Covid-19, preocupa agricultores e sindicatos ligados à categoria. Nesta segunda-feira (4) o Ministério Público (MP) local solicitou ao Poder Judiciário que as atividades sejam paralisadas durante 15 dias, a fim de evitar a propagação da doença. Produtores integrados temem que o fechamento ocasione perdas financeiras expressivas ao setor, que já é castigado pela estiagem.

Tanto a produção de frangos quanto a de suínos pode ser atingida, caso a Justiça atenda ao pedido do MP e acene positivamente para a suspensão das atividades industriais. A Companhia Minuano de Alimentos e a BRF, em Lajeado, trabalham com o abate destes animais. Estas culturas, inclusive, são carro-chefe da agricultura na região. Segundo o coordenador da regional sindical Vale do Taquari, Marcos Hinrichsen, a agricultura local tem como base o leite, os frangos e os suínos.

“Os sindicatos de trabalhadores rurais do Vale do Taquari estão, no momento, preocupados com a possibilidade de fechamento dos frigoríficos”, acrescenta Hinrichsen, que fala pela entidade ligada à Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag).

No caso dos frangos, o processo de preparação do animal até a chegada ao frigorífico é de aproximadamente dois meses. Ou seja, período que pede dedicação total do trabalhador do campo. Uma granja em Arroio do Meio tem cerca de cem mil aves para serem encaminhadas a abate num dos frigoríficos de Lajeado entre os dias 14 e 16 de maio.

Produtor integrado a uma das indústrias de Lajeado, um homem que trabalha no local explica que o ramo exige preparação. “Nosso trabalho demanda, pelo menos, 50 dias, desde o alojamento, matrizeiro, incubatório e tudo mais. A realocação não se dá de um dia para o outro. Não há como virar a chave de um dia para o outro e dizer aos frangos que esperem alguns dias”.

Os frangos são liberados para abate assim que completarem 28 dias e alcançarem o peso necessário. Se o encaminhamento demorar, segundo ele, será preciso investir em mais ração. O espaço físico não seria o adequado nesse caso, já que os frangos aumentariam de tamanho. “É muito duro para nós. Temos alojamentos, espaçamentos de aves por metro quadrado, sobre o peso dela, e não carregando na data prevista e organizada ela acaba sofrendo com superlotação e demanda de mais alimento.”, diz.

Para o produtor, o setor não está preparado para uma parada súbita e duradoura. “O sistema não comporta uma parada de 15 dias. Feriados são programados, finais de semana são programados. Alojamentos são programados e entregas são feitas, organizadas cronologicamente. Não tem como de hoje para amanhã fazer”, destaca.

No interior de Estrela, outras pessoas vivem o mesmo drama. Integrados a uma das plantas de Lajeado, os produtores de frango têm cerca de 170 mil animais para serem abatidos na próxima quinzena. Um dos proprietários diz que, se a parada ocorrer, este poderá ser um ano perdido para a propriedade. “Ficar parado com um lote impacta bastante depois, na hora de cumprir com os custos fixos. Seria praticamente um ano em que teríamos de trabalhar só para manter a granja. Um reflexo bastante drástico, e não só para nós”. Eles vivem do frango e, por isso, o temor é ainda maior.

Assim como o produtor anterior, o estrelense prefere não ter o nome divulgado. Igualmente, contudo, ele reconhece que o momento é de apreensão, em especial para quem contraiu financiamentos bancários. “Muitas granjas são financiadas, a maioria delas”. Informações do outro entrevistado, arroio-meense, dão conta de que apenas um dos frigoríficos de Lajeado abate cerca de 400 mil frangos ao dia, ou seja, atingindo, a cada 24 horas, pelo menos quatro famílias como as que foram ouvidas pela reportagem.

Ele ainda estima que cada lote, com sua realidade e variáveis a serem afetadas por esta parada, pode gerar um perda de até R$ 10 mil reais – valor que levaria em conta um cenário de pequena monta.

Qualidade ameaçada

Com a demora no abate, outro fator de problema, além do financeiro e de espaço, pode ser a qualidade do produto entregue. Os mercados que mais compram o frango brasileiro, asiático e árabe, exigem que o padrão seja mantido. Caso os animais aumentem de tamanho, pelo prolongamento dos dias, as características podem sofrer mutações. “Se o frango ficar maior, a dificuldade aumenta, seja pela disputa de ração ou de água, o que impacta em um lote mais desparelho. O volume intenso por metro quadrado de frango, com idade maior, impacta nos resultados”, conta um integrado.

Se o padrão de exportação não for mantido, os agricultores terão de recorrer ao mercado interno – o que poderá se estender ao suíno. As perdas podem ainda ser simbolizadas pela venda embutida, desmontada, do animal. Caso as indústrias de Lajeado sejam fechadas os frangos poderão ser remanejados a outras plantas, o que, com o passar dos dias, poderia implicar no aumento do abate em outros locais. “Vejo como transferindo um problema de Lajeado para outro endereço”, diz um agricultor.

Suínos

Assim como os frangos, os suínos dependem de uma rotina de criação. O que muda, porém, é a duração do ciclo. No caso do porco ele é ampliado, chegando a 200 dias. Sendo assim, a dedicação e a preparação aumentam, bem como os investimentos. Se o abate retardar, aumenta o consumo de ração e diminui o espaço físico.

Frigoríficos de Lajeado fazem tanto o abate de frangos quanto o de suínos (Foto: Natalia Ribeiro)

Num abate semanal de 15 mil animais o acréscimo de ração pode alcançar 90 toneladas, como estima um produtor independente de suínos. “A paralisação pode se alavancar numa sistemática maior de abrangência que pode vir a interferir no mercado interno porque as carcaças vão passar do ponto e pesar mais, saindo do padrão de exportação”.

Movimentos

Todos os personagens ouvidos pelo Grupo Independente entendem que medidas para coibir a propagação do vírus são necessárias, contudo, acreditam que duas semanas de interrupção das atividades nas indústrias sejam descabidas. A Fetag está em diálogo com a Secretaria Estadual da Agricultura, pedindo que, se determinado o fechamento, este se estenda durante alguns dias, algo que seja inferior a uma semana.

“Conhecemos o dia a dia dos nossos agricultores e agricultoras. Sabemos das centenas de estabelecimentos nos nossos municípios e o quão importante que é essa cadeia toda funcionar. São creches, estabelecimentos de terminação, uma roda viva que não pode parar”, diz Hinrichsen. O número de produtores de frangos e suínos na região não foi informado pela regional. As possíveis perdas não foram calculadas.

Saiba mais: Juízes solicitam informações a órgãos de saúde para decidir sobre possível interdição de frigoríficos de Lajeado

Em Passo Fundo, atendendo a pedido do MP, a planta da JBS foi interditada. Assim como ocorre em Lajeado, o município tem casos oriundos de frigorífico. No Vale do Taquari estima-se que cerca de 40 pessoas, entre as 223 já infectadas até a noite desta segunda-feira (4), tenham ligação direta com as indústrias. Em número de empregos diretos e indiretos, a estimativa da Associação Gaúcha de Avicultura é de sete mil pessoas nas duas plantas localizadas em Lajeado.

O que dizem as empresas

Ambos frigoríficos foram procurados pela reportagem. Apenas a BRF encaminhou uma nota, que pode ser conferida em seguida. Questionado nesta segunda-feira sobre o tema, em coletiva de imprensa, o governador Eduardo Leite (PSDB) disse desconhecer o teor das ações do MP, mas que o Estado permitia o funcionamento dessas indústrias por meio de uma série de obrigatoriedades sanitárias.

A BRF confirma que não foi notificada a respeito de qualquer ação civil pública com relação à operação de sua unidade de Lajeado. A Companhia destaca que a produção de alimentos é um setor essencial e, por esse motivo, continua operando e mantendo seu compromisso com a saúde e segurança dos colaboradores, da cadeia produtiva e com o abastecimento à população. Desde o início da pandemia, a empresa já implementou uma série de ações protetivas em todas as suas operações com a orientação de especialistas, como o infectologista Esper Kallas, e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, seguindo a recomendação das autoridades em saúde.

Entre estas iniciativas estão o uso obrigatório de máscaras, distanciamento mínimo entre funcionários, medição de temperatura nas entradas das unidades, afastamento de colaboradores do grupo de risco e casos suspeitos, reforço de higienização em diversas áreas e nos veículos de transporte fretado e busca ativa de potencial contaminação com o intuito de mitigar a exposição ao vírus.

A Companhia salienta também que realizou entre os dias 1º e 03 de maio processos de higienização e manutenções necessárias, visando reforçar as medidas protetivas. Vale ressaltar que, em abril, a BRF assinou um compromisso junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT), em nível nacional, que endossa práticas de proteção aos colaboradores que já vinham sendo adotadas. A BRF não medirá esforços para garantir, em primeiro lugar, a segurança das pessoas envolvidas em seu contexto operacional, trabalhando de forma colaborativa com as autoridades de saúde e os municípios onde está presente.

Texto: Natalia Ribeiro/ jornalismo@independente.com.br

1 comentário

  1. Frango e suínos são o carro chefe da agricultura? Não seria por acaso da pecuária? Acho que aprendi assim na escola, mas….

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