Inflação dos combustíveis e alimentos revive tentação por medidas econômicas fracassadas como congelamento de preços

Bolsonaro trocou o ministro de Minas e Energia por causa da política de preços da Petrobras. Mas com um liberal ortodoxo como Adolfo Sachsida, não devemos esperar intervencionismo


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Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro substituiu o ministro Beto Albuquerque, um almirante da Marinha, pelo economista Adolfo Sachsida no ministério de Minas e Energia nesta quarta-feira (11). É uma troca inesperada em Brasília, mas vem em um momento em que o chefe do Planalto aumenta o nível das críticas à Petrobras, ao presidente da companhia, José Mauro Ferreira Coelho, e ao ministério ao qual a estatal é vinculada.

Adolfo Sachsida é um doutor em economia e pesquisador liberal muito próximo ao ministro da Economia, Paulo Guedes, de quem foi subordinado no governo. Sachsida atuou como secretário de Política Econômica e chefe da Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia. Ele está com Bolsonaro desde a pré-campanha de 2018.

Com um opositor à intervenção governamental na economia, é esperado que, apesar da movimentação na Esplanada dos Ministérios, não tenhamos mudanças bruscas na política de preços e nem na condução dos negócios da Petrobras. O presidente atacou frontalmente a política de paridade internacional e os lucros acumulados pela companhia. Segundo ele, quem ganha são investidores internacionais, o que seria um “estupro” da população.

Sachsida, Guedes e Bolsonaro (Foto: Divulgação)

Para a mudança no Ministério de Minas e Energia também pesou o aumento de até 25% no preço da energia elétrica autorizado pela Aneel. Como pano de fundo da irritação do presidente está o aumento da inflação dos combustíveis e alimentos, que corrói o poder de compra dos brasileiros, e respinga em má avaliação para o governo.

A inflação oficial acumulada nos últimos 12 meses chegou a 12,13%, segundo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (11). Os números estão muito acima da meta do Banco Central para a inflação neste ano, de 3,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Realmente, é um susto ver o preço dos produtos nos supermercados, e um misto de lamento e irritação quando se vai aos postos abastecer o veículo. Mas é preciso ter a noção do contexto que leva a essa inflação, que não é exclusiva no Brasil, é no mundo todo.

A inflação internacional está batendo recordes em função da política expansionista de gastos durante a pandemia, associada ao lockdown ferrenho imposto a Shangai atualmente, com a China seguindo rigorosamente a sua política de “covid zero”, e à guerra na Ucrânia. São fatores que afetam severamente as cadeias de produção internacionais.

Outro aspecto que cobra seu preço foi que durante a pandemia, por conta do ‘fecha tudo’ e dos gastos do governo, o Brasil desvalorizou a sua moeda, emitindo muito dinheiro.

O pior de tudo é que não tem solução de curto prazo. O cenário internacional está nebuloso. Não se base quanto tempo durará a guerra na Ucrânia, que envolve dois grandes produtores de petróleo, trigo e milho, e também afeta a Bielorrússia. Junto com a Rússia, são dois grandes produtores de fertilizantes mundiais.

A inflação é péssima, mas algumas saídas que se ventilam são ainda piores. Congelar preços, por exemplo, gera escassez e desabastecimento, deterioração da qualidade do produto, destruição da capacidade produtiva, distorções grosseiras dos mercados, criação de burocracias tirânicas e opressivas para fiscalizar os preços, e uma perigosa concentração de poder político nas mãos de burocratas.

O Brasil já tentou esse remédio no passado, e foi um desastre monumental. O tabelamento de preços foi uma das principais medidas do fracassado Plano Cruzado, no Governo Sarney (1985-1990). Um olhar para fora também mostra o potencial lesivo desses congelamentos na Argentina, em Cuba, na União Soviética.

Para reduzir o peso da inflação, melhorar o ambiente econômico e dar um respiro à população, é preciso fazer o trabalho de base com reformas fiscais, administrativas e estruturais, como a revisão completa do sistema tributário, redução de gastos e adoção de políticas econômicas realistas, pragmáticas e sem aventuras irresponsáveis.

Texto por Douglas Sandri, graduado em Engenharia Elétrica, é presidente do Instituto de Formação de Líderes (IFL) de Brasília e assessor parlamentar. Todas as quartas-feiras, participa do quadro “Direto de Brasília”

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