Levar um recém-nascido para casa é uma das viagens mais entusiasmadas da vida

"Nessa hora, você não pensa nas renúncias que terá de fazer", analisa a jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


0
Foto: Pixabay

Eram três e meia quando eu passava em frente ao hospital Bruno Born de Lajeado. Bem na hora em que cheguei na portaria central, vi saindo uma mulher com uma criança no colo. Um recém-nascido. Do lado de fora, na entrada onde param os carros para embarque e desembarque, um homem arrumava algo nos bancos de um automóvel cinza. Considerei que poderia ser o pai da criança. Tive ainda tempo de ver que um senhor mais velho pediu para ver a criança. Talvez fosse o avô.

Dei alguns passos e fiquei com vontade de voltar. Não fiz isso porque não sabia, ao certo, como abordá-los. Enquanto caminhava, pensei em dizer que queria fazer uma crônica para este espaço, ou por pura curiosidade é que desejava ver o bebê. Arrumei mais algumas justificativas das quais nem lembro agora. O fato é que, a essa altura, a família já devia estar fazendo uma das viagens mais entusiasmadas que alguém pode fazer na vida. Você está com a sua obra no colo, uma ternurinha em pessoa. Um mimo da vida. Uma pessoinha. No percurso, nem pensa nas noites em claro que vai passar, nos cansaços do primeiro mês, na dualidade de emoções que sente quando, nas primeiras semanas, espera pelas visitas, mas respira fundo se a campainha toca bem na hora em que você iria tirar um cochilo.

A viagem do hospital para casa deve ser semelhante à sensação que um atleta tem quando passeia pela cidade num caminhão do Corpo de Bombeiros. Você tem um prêmio nas mãos, um troféu da existência, um ser que pode fazer transformações no mundo. Uma medalha de ouro humana que você deseja apresentar à humanidade. Nessa hora, você não pensa nas renúncias que terá de fazer, nas inquietações que aparecem assim que você entra na sua casa, no pouco tempo que terá para si, principalmente nos primeiros anos de vida da criança. A saída do hospital com um recém-nascido traz sensação semelhante à que a gente tem quando olha para o passado e percebe que fez o melhor que conseguiu fazer na criação dos filhos. Incluídas aí as culpas que carregamos conosco pela vida afora.

Acredito que a cena da mãe com o bebê mexeu comigo também porque, recentemente, assisti ao filme “A filha perdida”, de 2021, que, aliás, está concorrendo ao Óscar em três categorias. O Longa-metragem é baseado em romance de Elena Ferrante. Na história, uma professora universitária, chamada Leda, vai de férias para o litoral, onde conhece uma jovem mãe e sua pequena filha.

Lá pelas tantas, ela revela que também tem duas filhas, de 25 e 23 anos. Sem receio, afirma que “filhos são uma responsabilidade esmagadora”. Durante o enredo, Leda visita seu passado e relembra cenas da infância das meninas, que acabou deixando com o marido após se separar dele. O filme possibilita as mais diversas reflexões acerca da maternidade, da carreira e do nosso psiquismo.

Texto por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica 

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui