Médicos cubanos voltam a atuar em municípios do Vale do Taquari

Há registros em Bom Retiro do Sul, Imigrante e Roca Sales. Os profissionais não têm Revalida, mas receberam a aprovação da União.


0
Médico Jorge Reyna voltou a atender em Bom Retiro do Sul nesta quarta-feira, 26 de agosto (Foto: Fernando Dias/Divulgação)

Profissionais que atuavam no Vale do Taquari antes da ruptura entre os governos do Brasil e de Cuba voltaram a prestar atendimento aos pacientes da região através do Programa Mais Médicos. Há relatos oficiais de retomada das funções em Bom Retiro do Sul, Imigrante e Roca Sales. As homologações dos contratos, que têm duração de dois anos, ocorreram entre 18 e 20 de agosto. Todos haviam saído em 2018.


OUÇA A ENTREVISTA


Os médicos já são conhecidos das comunidades, visto que trabalharam nos respectivos municípios antes do impasse entre os países. Em novembro de 2018 o presidente Jair Bolsonaro anunciou mudanças no programa, o que fez com que Cuba solicitasse o retorno de 11 mil médicos. À época foi questionada a preparação técnica dos profissionais cubanos, que deveriam ser submetidos à revalidação do diploma. O convênio ainda tinha a participação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). No Vale do Taquari eram 50 inscritos, sendo a maior parte deles, 40, de estrangeiros.

No atual chamamento o Mais Médicos foi substituído pelo Programa Mais Médicos para o Brasil, também do governo federal. A carga horária, de 32 horas de trabalho e mais oito de estudo, permanece igual. A compensação financeira também. As prefeituras arcam com o custeio de serviços, cerca de R$ 3 mil, para aluguel, água, energia elétrica e internet, enquanto a União paga R$ 11,8 mil a cada um deles. Nas três cidades, o retorno dos profissionais foi celebrado pelas secretarias de Saúde.

Bom Retiro do Sul teve a volta do médico Jorge Reyna, que começou a atender na Estratégia de Saúde da Família (ESF) 2 na manhã desta quarta-feira (26). De julho de 2013 a novembro de 2018 ele atuou na ESF 1. Mesmo com o chamamento, Reyna permaneceu no município, desempenhando outras funções. Ele fez o revalida, mas não obteve aprovação no primeiro teste.

O secretário da Saúde de Bom Retiro do Sul, Paulo Marmitt, explica que “com o rompimento do programa Mais Médicos com Cuba foi inviabilizada a sequência dos profissionais. Afastados, alguns retornaram aos seus municípios. Outros seguiram, como o médico, que contraiu família na cidade”. Reyna foi o único candidato para o município no novo edital, de 12 de março, com foco na atuação de estrangeiros.

Este edital, o mais recente, era específico para intercambistas, como os cubanos, que ficaram no país sem terem inscrição no Conselho Regional de Medicina (CRM), ou seja, sem fazerem ou com reprovação na prova do Revalida. A explicação é da secretária de Saúde e Assistência Social de Imigrante, Regiane Möllmann, que também é a representante regional do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do RS (Cosems). Segundo ela, desde que Brasil e Cuba encerraram a parceria não houve novas provas, sem oportunidade de validação do CRM aos que ficaram.

Prefeito Celso Kaplan postou foto de boas-vindas com a doutora Katheryne (Foto: Divulgação)

A médica Katheryne Manresa Jinoria, que atuou de outubro de 2016 a novembro de 2018 em Imigrante, foi uma das profissionais que decidiu ficar. Quando vinculada ao programa, ela morava com a família no município. No período do afastamento mudou-se para Lajeado, onde atuou em lares geriátricos e farmácias. O seu retorno foi recebido com satisfação pela secretária. “Positivo porque no período em que ela esteve conosco conheceu toda a nossa demanda e se inseriu na comunidade. Teve resultados muito bons, principalmente na prevenção e na aceitação primária”, conta.

Imigrante participou de cinco ciclos do edital de março, mas não teve inscrições de interessados. Fez contato com o Ministério da Saúde, que aceitou incluir o município em um novo certame. “Sabemos da dificuldade do Ministério em meio a uma pandemia, em que é complicado para abrir edital. Nesse tempo teve a publicação de outro, em 26 de março, de reincorporação de médicos intercambistas, que estava em seu 20º ciclo”. Imigrante não estava totalmente apto a este modelo, pois tinha bons indicadores, de acordo com Regiane. A União ouviu o apelo e incluiu a localidade.

A mudança das regras, visto que a profissional estava disponível, permitiu o retorno de Kathy, como é chamada pelos moradores. As 40 horas do contrato foram divididas em atendimentos na comunidade de Daltro Filho e no Centro de Saúde da Família.

Médica Zureli Leon Toboso na retomada do trabalho em Roca Sales (Foto: Divulgação)

Em Roca Sales, a reincorporação da doutora Zureli Leon Toboso também está efetivada. A profissional havia atuado no município de julho de 2017 a novembro de 2018, sendo elogiada pela secretária da Saúde Raquel Oestreich. “Fez um excelente trabalho junto ESF do município. Agora ela volta para atendimento na Unidade Básica do Centro. Acredito que toda a população será beneficiada com o excelente trabalho que ela desenvolve e pela excelente profissional e ser humano que ela é”.

Como o programa havia sofrido as mudanças, Roca Sales tinha perdido a vaga em 2019. Agora, portanto, foi retomada com a segurança de alguém que já conhece os moradores e as suas demandas. Lajeado, por exemplo, tem médicos que atuavam no programa, passaram no Revalida, e estão na rede há mais de um ano. Ao todo, 1.012 profissionais cubanos foram reincorporados no Brasil nas últimas semanas, alguns deles no Vale do Taquari.

Texto: Natalia Ribeiro
jornalismo@independente.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui