Moradora de Paverama fala sobre saudade da filha e julgamento do caso Boate Kiss: “Termina um pouco o encanto pela vida”

Fernanda Tischer (21) estudava veterinária em Santa Maria. A mãe preferiu não acompanhar o júri de perto e acredita que a prefeitura deveria ser responsabilizada


0
Diana com a foto da filha, Fernanda, que faleceu aos 21 anos (Foto: Gabriela Hautrive)

Uma menina tímida, carinhosa e que amava rosas e os animais, assim Diana Tischer descreve sua filha mais velha, Fernanda Tischer, que aos 21 anos estava entre as 242 vítimas da tragédia que ocorreu em Santa Maria na noite do dia 27 de janeiro de 2013 quando a Boate Kiss pegou fogo. Além dos mortos, o incêndio também deixou 636 feridos. Faltando um pouco mais de um mês para completar 9 anos do ocorrido, os réus começaram a ser julgados em Porto Alegre, na quarta-feira (1º), com acompanhamento e cobertura do Grupo Independente.


OUÇA A REPORTAGEM


Diana costuma sorrir quando lembra dos momentos com a filha (Foto: Gabriela Hautrive)

Diana diz que não procura culpados, mas entende que mais pessoas deveriam ser responsabilizadas, e por isso optou por não acompanhar o julgamento de perto. “Isso mexe muito com a gente, a prefeitura tem muito há ver com fiscalização de ambientes, é quem dá o alvará, mas ela logo foi inocentada, então aí já ficou uma brecha para trás”, relata.

Apesar de forte, a produtora rural diz que sempre será difícil superar o vazio deixado pela filha. “Termina um pouco o encanto pela vida, e quanto pais ainda vão passar por isso?”, questiona. Além de Fernanda, Diana tem uma filha mais nova, Thais Tischer, de 23 anos. Em 2006, perdeu o marido, pai de suas filhas, em um acidente de trabalho, quando aos 38 anos ele caiu de um galpão na propriedade da família e faleceu.

Desde então, Fernanda passou a ser uma das forças da família, quem dava o obro para a mãe, já que sua irmã ainda era criança. Quando foi estudar em Santa Maria, estava realizando um sonho, como lembra a mãe. “Ela sempre quis ser veterinária e estava à procura daquilo que ela queria”. Ao ser questionada sobre aquilo que vem à cabeça quando pensa na filha, Diana apenas sorri e segundos depois surgem as lembranças. “Ela gostava de rosas, dos bichinhos, cachorros e vacas”, conta. Sobre o final do julgamento e sentença que ele terá não é uma preocupação no momento para a mãe. “Isso só o tempo dirá, foram nove anos, será que não vai mais nove?”.

São muitos questionamentos e lacunas que talvez jamais serão preenchidas, mas Diana sempre tentou seguir em frente, apesar da dor. “A Thaís (filha mais nova) está com 23 anos, tem marido e vão ter um bebê, então a vida continua, mas sempre dá aquela saudade”. Fernanda morava em Santa Maria há três anos. No dia da tragédia, Fernanda trabalhou durante o dia e a noite foi para a festa com uma amiga, a Michele, que também faleceu. Na semana anterior, visitou a mãe em Paverama e disse que sua vontade “era não voltar para Santa Maria”, pois estava se sentido muito bem em casa. A família ficou sabendo da tragédia no dia seguinte, em 28 de janeiro pela manhã, e então foi até a região central do estado para fazer reconhecimento do corpo.

Entenda o julgamento

Com início na quarta-feira (1º), por volta das 9h, no plenário do 2º andar do Foro Central I, em Porto Alegre, o julgamento do caso da Boate Kiss chega a seu 7º dia nesta terça-feira (7), com sessões são presididas pelo juiz Orlando Faccini Neto, responsável por determinar as penas, em caso de condenação. O grupo responsável pela condenação ou absolvição dos réus não têm acesso a telefone, internet, televisão, rádio ou jornal. Em caso de desobediência, o jurado estará sujeito a multa e a expulsão.

Como determina a legislação brasileira, em todos os júris os primeiros a deporem são as vítimas, seguidas das testemunhas de acusação e defesa, finalizando com o interrogatório dos acusados. Após, ao longo dos demais dias, 19 testemunhas dos réus serão ouvidas. Estas pessoas não precisam necessariamente estar na boate. Para isso se espera que se pronunciem amigos, familiares, funcionários ou até mesmo conhecidos dos réus.

Com o fim da fase de instrução, o júri se iniciam os debates, que, por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) terão duração de serão duas horas e meia para o Ministério Público e para a assistência de acusação, o mesmo tempo que para as defesas dos réus, além de duas horas de réplica e mais duas horas de tréplica.
Com o fim dos debates, os jurados serão questionados se estão prontos para decidir a sentença. Eles decidem individualmente, por voto secreto e com cédula depositada em uma urna, respondendo a perguntas formuladas pelo magistrado. A maioria simples prevalece, ou seja, bastam quatro votos para definir.

O julgamento será realizado nos três turnos, manhã, tarde e noite, todos os dias, e com horário previsto das 9h às 23h. A previsão é de que ele se estenda por duas semanas, uma vez que somente o processo principal soma 91 volumes e 19,1 mil páginas.

Texto: Gabriela Hautrive
reportagem@independente.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui