Moradores de Taquari se manifestam contra instalação de aterro sanitário: “Muitos problemas”

Projeto será em uma área de 150 hectares em Linha Amoras, no interior do município. Comunidade diz ter ficado sabendo do fato através da Câmara de Vereadores


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Parte da comissão dos moradores que não concordam com o projeto (Foto: Gabriela Hautrive)

Um projeto que prevê instalação de um aterro sanitário na localidade de Linha Amoras, no interior de Taquari, está gerando polêmica na cidade. Muitos moradores do local, entre Linha Amoras, Povoado de Júlio De Castilhos, Carapuça e Costa da Serra, não concordam com a construção do empreendimento. Eles relatam falta de transparência do projeto e uma série de problemas que envolve vertentes e fornecimento de água, que afeta a produção de alimentos, além de creche, posto de saúde e propriedades no entorno.

A empresa responsável é a Sustentare Saneamento S.A., com sede em São Paulo, que comprará uma área de terra de 150 hectares, sendo que em 66 será construído o aterro e no restante outras áreas, como sede administrativa, portaria e área para cortinas verdes, gerando 26 novos empregos.


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Um dos pontos que os moradores dizem não concordar é com a forma como o projeto foi feito sem ter o conhecimento por parte da população, conforme diz o presidente da Comunidade Católica São João Batista de Amoras, Luis Carlos Martins. “Fomos pegos de surpresa, não sabíamos desse projeto que começou lá em 2019 e não podemos aceitar de maneira nenhuma, pois fica dentro da comunidade. O local é impróprio, não podemos aceitar.” Os moradores foram informados sobre o projeto na sessão da Câmara de Vereadores do dia 25 de janeiro. “O presidente da Câmara que explanou em um vídeo que seria construído um lixão, ficamos sabendo e já tomamos providências, acionamos o Ministério Público”, relata.

Entre os problemas também estão as vertentes de água que ficariam, pelo projeto, em baixo do aterro, além de um poço artesiano que tem nas imediações e abastece 158 famílias, conforme o presidente da Associação da Água do Bairro, Vilson Silva de Souza. “Essa nossa água abastece 158 famílias. Se vem acontecer qualquer poluição na água, da onde vamos beber água? Essa é minha pergunta, a distância do poço dá cerca de 1,5 mil metros do local”, explica. O presidente da Associação do Povoado de Júlio de Castilhos, Régis Amaral dos Santos, também informa que na propriedade há muitas nascentes que não constam no projeto. “Inclusive nascem arroios e sangas ali”, completa.

Segundo os moradores, caso tenha algum tipo de vazamento no aterro, que inclusive está previsto no projeto esse tipo de incidente, o líquido iria para o Arroio Capivara e depois desembocaria no Rio Taquari.

Também há preocupação em relação ao cultivo de abelhas e produção de mel. O apicultor do município Augusto Faleiro diz que são feitas cerca de 400 toneladas, em média, de mel por ano na cidade. “Isso vai afetar bastante nosso projeto orgânico, são 50 famílias de SC, Cambará, Venâncio, Santa Cruz, que dependem diretamente da apicultura, pois hoje temos o privilégio de termos um produto 100% orgânico que são granjas de eucalipto, não temos grandes lavouras então somos privilegiados nessa área”, pondera.

Turismo rural e falta de transparência

O presidente da Associação do Povoado de Júlio de Castilhos, Régis Amaral dos Santos, que também faz parte do Projeto de Turismo Rural que está sendo desenvolvido na região diz que o empreendimento inviabilizará o trabalho. “É incompatível um lixão com turismo rural, sem falar na questão de total falta de transparência desse projeto.”

Segundo Santos, a comunidade ficou sabendo sobre a audiência pública que iria tratar do tema um dia antes e sem a possibilidade de participar. “Ficamos sabendo de última hora de uma audiência pública online em uma comunidade do interior que não se tem acesso a internet em um formato totalmente inadequado para um projeto dessa magnitude”, entende.

VÍDEO: Presidente da Associação do Povoado de Júlio de Castilhos, Régis Amaral dos Santos, fala sobre a ideia do projeto

Pesquisa com moradores

Janaína Medeiros, que atua como professora na localidade de Amoras, conta que seu nome consta no relatório da empresa através de uma pesquisa feita com moradores da localidade, porém as respostas não condizem com aquilo que ela informou. Conforme Janaína, os questionamentos foram feitos a distância em um período mais crítico da pandemia. Naquela oportunidade foi informado que seria feita uma reciclagem de lixo e mesmo a moradora dizendo que não concordava, foi colocado no relatório que ela “achava viável”. A área que será construído o aterro afeta 400 pessoas e dez foram entrevistadas na pesquisa.

O que diz o projeto

O projeto diz que a “análise ambiental foi realizada com vistas a contemplar o solicitado pelo órgão de fiscalização e controle ambiental (FEPAM/RS)”:

“Levantamento da cobertura vegetal cuja intervenção foi apontada como necessária à implantação do empreendimento, ou seja, vegetação localizada a oeste da área de interesse, apontada pela elipse vermelha no mapa de cobertura vegetal da gleba, no mapa de uso e ocupação do solo na gleba, já que com base no layout proposto para o aterro sanitário tal vegetação provavelmente será suprimida para a implantação das células de disposição de RSU de no 2 e 3”.

Sobre nascentes e poço artesiano, o projeto descreve as chamadas áreas úmidas: “Estas áreas, em geral, apresentam-se como áreas planas com uma coleção de espécies graminiformes estabelecidas entre espécies arbóreas de baixo porte. As águas, vindas de nascentes, acumulam-se temporariamente em pequenas “bacias” e logo são drenadas em pequenos córregos”.

Texto: Gabriela Hautrive
reportagem@independente.com.br

1 comentário

  1. É digna a preocupação desta população com sua água e vegetação, porém, para onde vai nosso lixo? A produção de resíduos cresce em progressão aritmética. Falta espaço físico para destinação. Acredito ser ponderável esta questão das nascentes, porém, tanto o licenciamento ambiental quanto a FEPAM também estão atentas a isso.

    Só adendo sobre as abelhas: com todo respeito, mas deixa os bichos em paz. Criar abelhas para vender o fruto de todo trabalho de uma colmeia não me parece justo.

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