Muitos eleitores devem se sentir como uma famosa personagem de conto de Machado de Assis

No quadro "Um Outro Olhar", a professora Ivete Kist lembra da agulha do conto, escrito há quase 150 anos, e sua frase: "Tenho servido para abrir caminho a muita linha ordinária!"


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Foto: Ilustrativa

Este ano eleitoral de 2022 tem capacidade para promover ampla renovação no governo do nosso país, pois a dança das cadeiras atinge o poder Executivo e Legislativo, em nível federal e estadual. De forma bem antecipada, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou o calendário com os prazos para toda a movimentação. Estamos agora a uns dois meses da oficialização das candidaturas, que só podem acontecer depois das convenções dos partidos e as convenções vão se realizar entre 20 de julho e 5 de agosto. Ou seja, até agora, oficialmente, ninguém é candidato a nada.

Mas a verdade é que o e o circo começou a pegar fogo faz tempo. Temos 32 partidos no Brasil. Era de prever o que acontece. Já há muita gente puxando os cordões ou tentando fazê-lo e criando movimentos de campanha. Os presidentes dos partidos se esforçam para disciplinar o processo no âmbito de cada grupo e os resultados nem sempre agradam.

Os pré-candidatos fazem o possível para colar desde cedo na simpatia dos eleitores. Alguns nomes já se apresentaram informalmente e é praticamente certo que serão confirmados pelos partidos. Cada qual procura maneiras de aparecer. Todos querem ser notícia do modo que for possível. O atual presidente tem a vida facilitada por conta mesmo do cargo. Outros concorrentes têm de batalhar mais. Ciro Gomes teve uma ideia boa: promoveu um debate com o artista e comunicador Gregório Duvivier. A repercussão foi notável.

Agências de pesquisa eleitoral trabalham a pleno. Colhem dados periodicamente e vão monitorando a evolução das preferências. Analisam os resultados , como se a campanha eleitoral já estivesse aberta.

Os meios de comunicação não podem se queixar de monotonia. Nesta segunda-feira, o pré-candidato do PSDB, João Doria, renunciou à candidatura, provocando ebulição no campo da chamada terceira via. Mais novidades são esperadas para qualquer momento.

O que não se conhece muito bem é o pensamento do eleitorado. Não é de duvidar que muito eleitor se sinta como a agulha, a famosa personagem de um pequeno conto de Machado de Assis, escrito há quase 150 anos.

Pois a agulha andava toda orgulhosa, pensando que era decisiva na área da costura. Afinal, era ela que a costureira utilizava para ir juntando as partes do vestido da baronesa. Era ela que abria o caminho para a linha que vinha atrás. A agulha se achava. Pensava que era o centro do processo e que, naturalmente, seria a beneficiária dele.

O caso é que, quando chegou a hora do baile, a baronesa levou o vestido e a linha foi junto grudada no vestido. Quanto à agulha, ai-ai-ai, a pobre voltou para a velha caixinha de costura. A agulha foi a única que ficou em casa. Não admira que apresentasse a uma conclusão melancólica:

Tenho servido para abrir caminho a muita linha ordinária!

Texto por Ivete Kist, professora de Letras e Literatura


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