Nem todas as pessoas conseguem hospedar visitas com naturalidade

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Imagem ilustrativa de quarto de visitas (Foto: Pixabay)

Na casa da minha infância havia quatro quartos. Um pertencia aos meus pais, o outro eu dividia com meu mano, o terceiro era usado para guardar badulaques e o último significava uma espécie de espaço nobre da casa, o quarto de visitas. A ordem da mãe era de que a gente não sentasse na cama nem mesmo quando estivesse de pijama. Também não devia ter qualquer outra bagunça. Tudo precisava estar em ordem caso algum parente viesse de mais longe.

Fazendo um esforço mental, não enchi duas mãos de vezes em que isso aconteceu. No fundo, a mãe sabia que não haveria grande demanda para aquele cômodo, contudo, não desejava ser pega desprevenida diante de uma visita surpresa. Na verdade, naquele tempo, no interior, os parentes se visitavam sem qualquer aviso prévio, até porque não havia meio de comunicação que não fossem cartas, ou o telefone que ficava na casa comercial da comunidade. Talvez por isso é que a visita era recebida como um presente inesperado.

Minha mãe não sabia o que fazer para agradar, muito embora, havia ocasiões em que ficava apreensiva na falta de algum mantimento. A sorte é que os vizinhos sabiam ser generosos e um emprestava para o outro aquilo que estava faltando: uma xícara de arroz, de açúcar, de farinha, ou mesmo um pedaço de carne. Na hora do aperto, a tarefa de providenciar o empréstimo, quase sempre, era dos filhos.

Tudo acontecia de um jeito muito sutil para que a visita não percebesse qualquer atrapalho. O disfarce diante da falta devia ser atribuído à pouca intimidade com o visitante. Se o convívio andava tímido, talvez não fosse prudente revelar qualquer mal-estar. A necessidade de manter as aparências tornava a hospedagem algo trabalhoso e, de certa forma, teatral, por mais contentes que todos estivessem.

Nesse sentido, no livro “É tudo tão simples”, a escritora e consultora de etiqueta Danuza Leão dedica um capítulo ao ato de hospedar. Ela fala das demandas que fazem parte da boa recepção e do quanto ser natural deixaria o convívio muito mais agradável.

“Uma vez me hospedei na casa de uma amiga, em Miami. Ela me perguntou: O que é que você come de manhã? Porque aqui em casa não tem nada”. Me senti tão bem, tão à vontade, que à casa dela eu até voltaria”.

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