Ninguém é tão forte e seguro a ponto de nunca precisar de olhos alheios para seguir a caminhada

O ser humano gosta de ter previsões sobre o seu futuro porque é angustiante não saber, ao certo, como será o dia de amanhã


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Frequento um restaurante em Lajeado onde o cliente, na saída ou na chegada, pode retirar uma mensagem. São dizeres impressos em pequenos bilhetes. Já encontrei frases de Albert Einstein, de Oscar Wilde e de Fernando Pessoa. Todos da minha casa pegam um bilhetinho na saída. Lemos um para o outro e, quase sempre, aquele que está na vez de mostrar o seu recado, comenta o sentido que pode estar no texto. São suposições que cada pessoa faz a partir do seu entendimento.

Considero a iniciativa interessante porque provoca o sujeito a pensar sobre si, sobre a sua história. Não como um presságio, uma adivinhação, mas como um pensamento que pode inspirar. Todas as pessoas têm aqueles dias em que a vida parece estar destemperada, sem gosto, sem saliva, sem força para engolir qualquer estranhamento.

Ninguém é tão forte e seguro a ponto de nunca precisar de um olhar de fora para caminhar. A constatação ganha força quando considero o meu cotidiano no consultório. Quem busca ajuda psicológica é porque reconheceu que não consegue se virar sozinho diante das suas dificuldades, atrapalhos e sofrimentos.

É também curioso pensar no quanto temos o desejo de que alguém nos fale sobe o nosso futuro. Cada um de nós pode acreditar no que bem quiser e naquilo que consegue crer. Quanto a mim, tenho meus ranços com presságios. Na única vez em que aceitei que uma mulher lesse meu destino, não me pareceu prudente e confiável.

Ao analisar a palma da minha mão, a senhora disse que uma mulher de cabelos ondulados estaria colocando meu emprego em risco. O fato é que eu nem tinha colega de trabalho do sexo feminino, mas juro que passei alguns dias olhando para as madeixas da mulherada. Alguém te dizer algo sobre teu destino pode te trazer esperança, mas pode também virar um mal-estar diante dos dias que estão por vir.

O ser humano gosta de ter previsões sobre o seu futuro porque é angustiante não saber, ao certo, como será o dia de amanhã. Até mesmo porque, a todo momento, temos provas de que a vida pode ter uma reviravolta numa fração de segundos. Por outro lado, o charme da existência parece justamente estar na aventura que é “matar um leão por dia”.

Texto por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica


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