Ninguém está totalmente preparado para lidar com a velhice dos pais

A jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing faz uma reflexão com o filme “Meu Pai"


0
Foto: Reprodução / Filme "Meu Pai"

A senhora que antes me abraçava, desta vez, passou por mim como se não tivesse me enxergado. Não me ocorria nada que pudesse ter causado algum desgaste na nossa relação. Aquilo me incomodou por alguns dias. Como ela havia se esquecido de mim e de todas as conversas que tivemos? Teria ela se chateado por algo que eu teria feito sem que me desse conta? Tempos depois, soube que ela sofria de Alzheimer, que vivia completamente confusa e que não reconhecia ninguém, até mesmo as pessoas que ficavam diariamente com ela.


ouça o comentário 

 


 

Trago o tema em função do filme “Meu pai” ao qual assisti no final de semana e que estava concorrendo ao Oscar em seis indicações. A 93ª cerimônia de entrega da premiação aconteceu no último domingo e, em função da pandemia, foi realizada em três cidades: Los Angeles, Paris e Londres. O prêmio de melhor ator foi para Anthony Hopkins, de 83 anos, que faz o papel do protagonista. Aliás, o personagem principal do filme tem o mesmo nome, Anthony, e a mesma idade e data de nascimento do ator. Tudo isso para que Hopkins, durante a filmagem, mergulhasse nas cenas de forma muito viva, estando cara a cara com a sua própria velhice.

O filme “Meu Pai”, dirigido por Florian Zeller, mostra um drama familiar comum a todos nós, a velhice dos pais e o nosso próprio envelhecimento. Quantas pessoas estão passando por situação semelhante à contada no filme, com algum familiar ou conhecido sendo consumido pelos sinais de demência. Ninguém está totalmente preparado para a velhice dos pais, especialmente para lidar com o adoecimento, no caso o mal de Alzheimer. São inúmeras demandas de ordem prática como, por exemplo, a garantia para que a pessoa esteja em segurança, sem falar nas dores emocionais que são suscitadas em todos os afetados. Aliás, “Meu pai” retrata outra questão com muita clareza: o sofrimento da pessoa que sente que a cabeça está começando a falhar. “Eu me sinto como se estivesse perdendo todas as minhas folhas. O vento e a chuva… não sei mais o que está acontecendo”, disse Anthony em uma das cenas mais comoventes do filme.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Por favor, coloque o seu nome aqui