No Chile, nos chamavam de ‘Sobreviventes dos Andes”, conta turista que ficou preso na nevasca

Grupo de turistas chegou neste sábado (23), no Vale do Taquari


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Foto: Elisangela Favaretto

Chegou ao fim o drama dos turistas que ficaram presos no Chile por causa da nevasca. Na manhã deste sábado (23), por volta das 6h30min, o grupo chegou em Teutônia. As 34 pessoas, entre uma criança, adultos e idosos, iniciaram o retorno na quinta-feira (21).

O empresário e turista, Gerson Henrich, que viajou com a esposa, a filha de seis anos e os sogros, contou para a reportagem a aflição e o medo que viveram em solo chileno. O grupo saiu do Vale do Taquari no dia 06 de julho, com previsão de retorno no dia 14.

“A viagem de ida foi tranquila. Chegamos em Mendoza, na Argentina, por volta do meio-dia, fizemos um passeio, almoçamos e fomos para o hotel. No dia seguinte, de manhã cedo, nós saímos e fomos até a divisa, numa cidade chamada Los Heras, bem no pé da Cordilheira, no lado argentino. Quando chegamos, o portão estava fechado e tinham muitos carros e caminhões parados. Estacionamos num posto de combustível e ficamos parados por cinco horas”, lembra.

Depois desta grande pausa, com bastante expectativa, o grupo iniciou a subida das Cordilheiras. Subiram cerca de 30 quilômetros e pararam para tirar fotos, quando houve o primeiro contratempo.

“Os motoristas nos chamaram e disseram que teríamos que voltar para Mendoza, porque tinha sido fechada a Aduana Argentina, já que estava nevando demais. Voltamos até Los Heras e dormimos num hotel. No outro dia começamos a subir as Cordilheiras até chegar na Aduana Argentina e, naquele momento, houve mais um problema, pois uma senhora havia esquecido os documentos em Mendoza. Então, ou voltávamos todos ou só ela voltava. Ela voltou para a cidade e nós seguimos em frente”, conta.

Ao chegarem na Aduana Chilena, no sábado de tarde, começou a nevar. Lá, desceram do ônibus, tiraram as bagagens e fizeram a documentação, mas quando entraram no ônibus foram avisados de que não poderiam seguir viagem, pois a nevasca havia se antecipado em quatro horas. “Não sabíamos mais o que fazer e o que seria dali para frente. Estávamos felizes porque estava nevando, mas jamais pensamos que ficaríamos trancados por quatro dias”, lembra.

O grupo não recebeu alimentação e, somente no outro dia, às 20h, ganhou uma sopa servida numa xícara. “No domingo de noite subimos no restaurante do pavilhão e percebemos que somente os funcionários da Aduana e os chilenos recebiam comida. Os brasileiros e argentinos não recebiam nada. Até tinha um local com venda de sanduíches, mas não era liberado para os brasileiros. Para nós, somente bolachas e salgadinhos. Nos juntamos, chamamos a atenção e pedimos por comida, até que nos serviram uma xícara de sopa e foi o que comemos em um dia e meio”, relata.

Retorno no caminhão do Exército

Preocupado com a falta de informações, Henrich contatou pessoas em Estrela e Teutônia para ver o que poderiam fazer, até que o Consulado Brasileiro, no Chile, sinalizou que enviaria o Exército local. “A neve só aumentava. No domingo à noite chegou o Exército Chileno e, duas horas após a sopa, nos deram um sanduíche. Foi assim até terça-feira de manhã, quando disseram que poderíamos descer as Cordilheiras no caminhão do Exército, já que estava vindo uma nova nevasca e ficaríamos trancados até a outra semana”, destaca. “Estávamos no ponto mais alto da Cordilheira, precisávamos descer por curvas perigosas e na carroceria de um caminhão aberto, com lona por cima, cheio de idosos. Era arriscado, mas era a única opção”, explica.

A viagem até Los Andes, no Chile, durou uma hora e meia. “Quando chegamos, o Exército estava nos esperando, nos recepcionaram muito bem e nos mandaram até Santiago num hotel. Lá, continuávamos apreensivos. Na quarta-feira houve uma nova nevasca e, por isso, ficamos oito dias em Santiago. Só comíamos algo e voltávamos para o hotel, porque a qualquer momento poderiam liberar a nossa saída. Na quarta de tarde (21) avisaram que poderíamos voltar, mas optamos, por uma questão de segurança, sair na quinta de manhã, bem cedo. Levamos 49 horas para chegar até Teutônia”, detalha.

Sinal de internet

Henrich relata que só tinha um ponto onde pegava internet na Aduana Chilena e, ele ficava bem próximo do portão de entrada. “A temperatura estava em 18 graus negativos, mas a sensação era pior. Dava para aguentar um minuto. Foi difícil. Ficamos três dias sem tomar banho e com comida precária”, observa. “O ônibus teve que ficar ligado nos quatro dias, porque senão o motor congelava e o pior, é que a porta da frente tinha que ficar aberta para entrada de ar. Passamos muito frio”, conta.

Para o turista, a viagem foi uma aventura que proporcionou um aprendizado muito grande. “Nos tornamos uma família. Todos se ajudaram muito, tornando o ambiente mais alegre, dentro das possibilidades que tínhamos. O que vimos, poucas pessoas no mundo terão a oportunidade de ver. Teremos histórias e imagens que nunca esqueceremos. Quero voltar, mas agora de avião, para conhecer tudo o que não deu para conhecer”, complementa.

Texto: Elisangela Favaretto

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