Nossas atitudes nas redes sociais dizem muito sobre nossa verdadeira essência

"Estamos num tempo em que tudo é passível de ser gravado e, facilmente, reproduzido." Ouça o quadro e leia o comentário da psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Ilustrativa

No estúdio da Rádio Independente, no intervalo dos blocos de um programa, muitas vezes, ficamos conversando. Também pode ser tempo para um gole de café, e até para um alongamento não planejado. Mas, assim como é na vida vivida de cada um de nós, lá pelas tantas, somos vistos de ângulos que não estavam previstos no nosso roteiro.


ouça o quadro

 


Outro dia, fiz uma série de performances com os braços e só me dei conta disso quando alguém me enviou as imagens pelo WhatsApp. Estamos num tempo em que tudo é passível de ser gravado e, facilmente, reproduzido. Da mesma forma, aquilo que tornamos público consegue ter efeitos inimagináveis, já que, no movimento de um único clique, uma informação pode ser espalhada pelo mundo. O poder das redes sociais é de tamanha ordem que faz pensar na nossa frágil condição humana diante de tantas possibilidades de expressão. É nesse contexto que, hoje em dia, acontecem, ou se originam os mais diversos movimentos da sociedade. Por ser um espaço onde, em alguma medida, é possível ficar no anonimato, é também nas redes sociais que, muitas vezes, nos faltam limites.

Nesse sentido, li um texto muito interessante de autoria da jornalista e psicóloga Tamara Bischoff onde ela reflete sobre o nosso comportamento diante das leis. Referindo Freud, ela coloca que as mesmas são necessárias para que a vida em sociedade seja possível. “Só nos construímos humanos havendo restrições a um gozo total”, diz ela. Ou seja, não podemos colocar em ato tudo que desejamos, não devemos dizer tudo o que pensamos. Esse filtro é feito pelo nosso mundo psíquico, mais precisamente pelo nosso superego, que é responsável por reprimir os instintos primitivos com base nos valores morais e culturais.

Contenção semelhante também é o objetivo das leis, normas e contratos presentes nos mais diferentes contextos. Tamara prossegue dizendo que, se tomarmos por base a psicanálise como forma de pensar e de dizer, é interessante observar a relação das pessoas com a lei, uma vez que a forma de se posicionar frente à sociedade caracteriza as diferentes constituições psíquicas. “O neurótico, então, seria aquele que aceita a lei, respeitando-na; o psicótico, aquele que nega a lei; e o perverso aquele que denega a lei, ou seja, recusa-a. Isso pode ser observado tanto nas macro como nas micro situações cotidianas”.

Se as leis e normas funcionam como barramento, o olhar que o outro nos devolve também serve para nos encorajar, repreender, alertar ou mesmo intimidar. Por isso, no momento em que podemos nos posicionar sem ter o outro na nossa frente, ficamos mais encorajados para maledicências. Isso vale de forma muito certeira para as nossas postagens nas redes sociais, onde as devidas punições a atos criminosos nem sempre são aplicadas, o que favorece a proliferação de críticas ofensivas, maldades escritas e desrespeitos. Nesse sentido, cabe referir um pensamento do dramaturgo e escritor irlandês Oscar Wilde (que viveu de 1854 a 1900): “Tanta a mais elevada quanto a mais baixa forma de crítica é uma espécie de autobiografia”. E isso vale também para as considerações positivas que fazemos aceca dos outros. Em alguma medida, elas também nos contam.

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