Nossas dores psíquicas devem ser olhadas quando ainda estão brandas

No comentário desta sexta-feira, a jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing reflete que as principais marcas ou feridas emocionais acontecem na infância


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Foto: Pixabay

Estava preparando o almoço quando abri a torneira para lavar cenouras que havia picado. Na hora em que coloquei o recipiente embaixo da água, reparei que, imediatamente, recolhi o dedo minguinho. Fiz isso sem pensar. Reflexo. Acontece que, há uma semana, queimei o dedo com azeite enquanto fritava pasteis. Doeu na hora, mas não dei muita importância. Na manhã seguinte, vi que tinha uma ferida. Segui fazendo vistas grossas. Nesses últimos dias, durante algumas limpezas na casa, na hora de lavar as mãos, ou enquanto tomava banho, o machucado sempre doía um pouquinho. Distraída com outras tarefas, não prestava muita atenção. Pouco a pouco, a ferida foi infeccionando e a dor aumentando de intensidade a ponto de meu cérebro fazer um movimento de recolhimento quando eu iria colocar o dedinho na água outra vez.

Fiquei pensando que essa situação possibilita fazer uma analogia com o nosso mundo psíquico. As principais marcas ou feridas acontecem na infância. Nessa fase da vida, pelas mais diversas razões, muitas vezes, a família não percebe ou não é capaz de ver que aquela vivência poderá desencadear sofrimento psíquico nos anos seguintes e na vida adulta. A criança vai crescendo e, na repetição de emoções semelhantes ao evento que gerou a marca inicial, poderá fazer ferida encima de ferida. E, isso se repetirá ao longo da vida, desencadeando sintomas geradores de sofrimento. Por exemplo, há pessoas que evitam entrar num relacionamento com medo de se machucar porque, bem possível, possuem um registro anterior de tal ordem. E, assim, como defesa psíquica manifestada pelo inconsciente, podem fazer movimentos para nunca conseguir engatar um namoro. Da mesma forma, como a pessoa que sofreu abandono na infância poderá ter dificuldades para criar vínculos duradouros, ou seja, ela abandona antes para evitar que seja abandonada. Estou dando exemplos a grosso modo, mas, em síntese, o que quero dizer é que, a maioria das dores que temos hoje, tiveram origem no passado. Enquanto não olharmos para nossas feridas psíquicas, corremos o risco de nos machucar ainda mais.

Tantas vezes, feito o que fiz com o queimado no meu dedo, ignoramos sinais de que algo não está bem conosco. Até que, um dia, a dor fica muito intensa. Por isso, não deixe chegar a esse ponto. É importante tratar o machucado, ou o trauma que atormenta a sua vida para evitar que essa dor se prolongue por toda sua existência. Ou, no caso do meu dedinho, antes que vire uma infecção generalizada.

 

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