O 20 de setembro de 1835 que hoje segue em nosso tempo atual

Quase 200 anos após, ainda sentimos que estamos presos ao princípio de que nem sempre o que bom ao Brasil é bom ao nosso Estado, e que nossos conflitos por exagero e excesso de carga tributária continuam.


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Foto: Coluna do Fabiano / Arquivo

A história nos conta que a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos perdurou por longos 10 anos, entre 1835 e 1845. Hoje em dia, afora os Centros de Tradições Gaúchas, merece destaque a marcha de cavalarianos, tipicamente trajados, pelas cidades; uma forma de resgatar um tempo de lutas e glórias, e, mais ainda, de incertezas e severas disputas políticas.


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O Brasil era imperial naqueles tempos, e, diretamente, a Coroa não estava preocupada com os interesses do povo da província do Rio Grande do Sul. A base principal do entrevero com o governo central foi a taxação do charque, nosso principal produto e, não ainda satisfeito, o taxação do sal, insumo básico a manufatura do charque. Mas outras causas também tiveram relevância: insatisfação com a taxação sobre o gado na fronteira Brasil–Uruguai;Insatisfação com a criação da guarda nacional, insatisfação com a negativa do governo em assumir os prejuízos causados por uma praga de carrapatos que atacou o gado na região em 1834, insatisfação com a centralização do governo e a falta de autonomia da província e circulação dos ideais federalistas e republicanos na região.

Na verdade, o movimento não era separatista e sim de solução da questão tributária. Porém, a partir de 1835, o movimento liderado por Bento Gonçalves tomou corpo e a revolta servia aos interesses dos estancieiros pecuaristas que usaram as camadas pobres da população como massa de apoio no processo de luta. Toda guerra, no passado e presente, se resume a mortos e feridos, áreas de combates destruídas, população civil em desamparo e num acordo entre vencedores e derrotados.

Ao cabo de 10 anos, a paz do Poncho Verde demonstrou a derrota, ou não, dos farrapos do seguinte modo: taxação em 25% sobre o charque estrangeiro, anistia para os envolvidos com a revolta, incorporação dos militares dos farrapos ao exército imperial, mantendo sua patente; os provincianos teriam direito de escolher o próprio presidente de província (entretanto, isso não foi cumprido), e os escravos que lutaram do lado dos farrapos seriam alforriados (item também não cumprido).

Como facilmente se percebe, quase 200 anos após nossa memorável batalha, em que hoje cantamos com alegria e amor, ainda sentimos que estamos presos ao princípio de que nem sempre o que bom ao Brasil é bom ao nosso Estado, e vice-versa; que nossos conflitos por exagero e excesso de carga tributária continuam a ser a pauta mais presente em nossa relação com o Estado, hoje uma República Federativa.

Diante disso, entre todas reflexões possíveis e justas, vejo que avançamos pouco, quase nada, pois ainda somos incompetentes e inaptos para sustentar os ideais que os então revolucionários farroupilhas, com coragem e fibra, sustentaram.

Carlos Augusto Fiorioli, promotor, membro do Ministério Público em Lajeado

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