O amor mais genuíno é aquele que retorna quando se sente livre para voar

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Divulgação / Ilustrativa

Na terça passada, depois que apresentei meu quadro, fiquei de papo com os colegas na sala de espera, ao lado do estúdio. Aliás, é comum a gente ter essas conversas de corredor. Um colóquio de poucos minutos, mas o suficiente para fazer pensar por horas, dias, ou até mesmo podendo virar nota mental para a vida. É interessante que, diante de cada colega, os temas variam. Com o Renato Souza falo mais sobre questões existenciais e aprecio escutar causos de São Borja. O Nícolas me atualiza sobre leituras, cinema e temas psicanalíticos. Com o Paulo Rogério a conversa é sobre filhos, família e observações da vida cotidiana. O João Carlos fala de assuntos diversos, mas o olho dele brilha quando a conversa é sobre cavalos. O Fabiano Conte comenta sobre notícias e o Joel conta alguma coisa engraçada. O Renato Worm diz um “bom dia” em alto e bom tom, e logo vai para a sua mesa de trabalho. A Angélica, numa passagem rápida, faz comentários sobre assuntos aleatórios relacionados a alguma vivência pessoal.

Eu poderia contar histórias de corredor sobre cada um dos meus colegas, afinal, são 22 anos de empresa. Contudo, hoje, quero referir, com mais detalhes, a conversa que tive com o Adil Cesar na última terça-feira. Adil raramente participa desses papos matinais, mas, na terça, ele estava ali. Para quem não o conhece, explico que, pelas minhas análises, ele é um sujeito quieto, de poucas palavras, de algumas risadas não decifráveis e de um olhar observador, cujo conteúdo nem sempre é possível identificar com precisão. Adil, poucas vezes, fala de si. O engraçado é que, desta vez, ele descambou para a gabolice. Começou a se prosear com os seus bichinhos de estimação da natureza. Ele mora num sítio e me contou que, na propriedade, tem de tudo, especialmente pássaros: pardal, sabiá, beija-flor, tucano, quero-quero e mais uma infinidade de aves de nomes que nem conheço direito.

Diante da fala do Adil, feito criança que deseja contar vantagens, resolvi me prosear também. Falei que, diariamente, acordo com o canto dos pássaros e que também vibro com os bichinhos coloridos que, volta e meia, vejo sentados num galho de árvore. Adil tem uma coleção muito mais expressiva porque faz um esforço maior do que eu. Ele estudou as espécies de plantas e flores que atraem a bicharada, por isso, os beija-flores vêm em bandos. Uns avisam aos outros que, no pátio da casa do Adil, há um cartaz de boas-vindas.

De cuidados com os bichinhos de estimação da natureza, a conversa evoluiu para falarmos sobre liberdade, sobre o que motiva alguém a retornar a um lugar, a permanecer no nosso coração, a desejar ficar conosco. O afeto mais genuíno é daquele que retorna porque foi conquistado, daquele que se sente livre para voar, mas que deseja estar conosco porque é amado, querido e cuidado, feito os nossos animais de estimação que estão livres na natureza, mas que retornam porque é bom estar perto de nós.

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