O maior legado de um pai é transmitido pelas suas atitudes

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Dirce Becker Delwing

Acabo de ler um dos livros mais profundos do meu acervo pessoal de leituras. Chama-se “Cartas a meu pai”, de Franz Kafka. Kafka nasceu em Praga, em 1883, e faleceu em Viena, em 1924, aos 40 anos, vítima de tuberculose. Era doutor em Direito e escritor. São dele obras clássicas como “Metamorfose” e “O processo”.


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O livro que trago aqui, “Cartas a meu pai”, reúne escritos que Kafka fez para seu pai, que nunca foram entregues ao destinatário, sendo publicados depois da sua morte. Na obra, Kafka descreve momentos que viveu com a família em que destaca o jeito autoritário do pai, a educação severa que recebeu e o quanto as falas paternas dirigidas a ele lhe causaram pânico e sensação de incompetência. Ele conta que na hora das refeições, por exemplo, o pai passava o tempo todo cobrando condutas com frases severas. O que se colocava sobre a mesa precisava ser comido. Ninguém podia reclamar. O ritmo do ato de comer devia estar em conformidade com o tempo estipulado pelo pai.

Kafka assim escreve:

“Comias, devido ao teu apetite excelente, tudo com satisfação especial, rápido, quente e em grandes bocados, e, por isso, as crianças deviam apressar-se; na mesa reinava um silêncio sombrio, interrompido apenas por admoestações: “primeiro come, depois fala”, ou “mais rápido, mais rápido, mais rápido”, ou “não vês que há muito tempo terminei”. O pai era cheio de exigências. O pão devia ser cortado em fatias retas, mas ele próprio não respeitava a norma.

Kafka prossegue: “Era preciso ter o cuidado de não caírem migalhas no chão, ao término, a maior parte delas estava debaixo de ti. Na mesa somente era permitido ocupar-se com a comida. Mas tu cortavas e limpavas tuas unhas, apontavas os lápis, limpavas as orelhas com palitos de dentes. (…) Tu, o homem tão significativamente decisivo para mim, não cumprias os preceitos que me impunhas”.

Muitas pessoas, ao ouvirem esses trechos escritos por Kafka, se reconhecem na forma severa como foram criadas. E, em alguma medida, quem tem filhos fica pensando nas falas que dirige a eles. Acredito que a análise da obra kafkiana possibilita várias angulações sobre as relações familiares. Acerca do comportamento dos pais, talvez Kafka desejasse deixar o seguinte recado: Não diminua seu filho com críticas severas demais, ou com expressões humilhantes e constrangedoras. Não pense que isso o ajudará a reagir, a se dedicar mais aos estudos, à carreira. Pelo contrário, estarás lhe impondo uma grande dose de sofrimento e de destruição da sua autoestima e coragem.

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