O psicólogo constitui uma obra de arte com cada paciente que passa pela sua clínica

Confira o comentário da jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing.


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Foto: Dirce Becker Delwing

Hoje é o Dia do Psicólogo, profissão que venho exercendo nos últimos anos. Li, ontem, no site do Conselho Federal de Psicologia, que o Brasil tem 378.473 psicólogos. No Rio Grande do Sul são 23.756. Como homenagem a todos os profissionais, destaco um poema do Cyro Martins, escritor e psicanalista brasileiro. Ele nasceu em Quaraí, em1908, e faleceu em Porto Alegre no ano de 1995.


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O poema intitulado “O terapeuta” assim diz:

“Pois fica decretado
a partir de hoje
que terapeuta é gente também.

Sofre, chora
ama, sente
e às vezes precisa falar.

O olhar atento,
o ouvido aberto,
escutando a tristeza do outro,
quando às vezes a tristeza
maior está dentro do seu peito.

Quanto a mim,
Fico triste, fico alegre
e sinto raiva também.

Sou de carne e osso
e quero que você saiba isto
de mim.

E agora,
que já sabe que sou gente,
quer falar de você para mim?”

A reflexão de Cyro Martins evidencia que o psicólogo não vai deixar de sentir dores psíquicas e que ele está exposto a todas as mazelas desse mundo. No entanto, na hora em que ele está no seu espaço clínico, a escuta vai ser dedicada, por inteiro, ao paciente, ao analisando. E, claro, por já ter feito o seu próprio caminhão de análise, de terapia, poderá lidar melhor com suas próprias questões. Sem falar que o psicólogo deve ter um supervisor, um outro profissional mais experiente, com quem ele se identifica, a quem poderá recorrer para pensar os casos clínicos acerca dos quais tem dúvidas quanto ao tratamento.

Foto: Dirce Becker Delwing

Por vezes, a gente ouve pessoas dizendo algo como: aquela fulana é psicóloga, mas o filho dela tem problemas. Isso soa como se o psicólogo não pudesse ter desafios na sua vida pessoal. Essa mãe psicóloga, que tem um filho com seus atrapalhos, justamente por isso poderá ser brilhante na escuta clínica. Afinal, a gente está nesse lugar de terapeuta não apenas com o saber teórico. Também a nossa história de vida está presente no encontro com cada paciente, ou analisando, não para ser dita em palavras, não para ser uma referência para aquele que nos procura. Mas, é ela, a vida vivida, aliada aos estudos, escutas e interações com outros profissionais, que nos dá suporte para cada encontro. Aliás, com cada pessoa a gente constitui uma obra de arte. Quem pinta ou recria o quadro é o paciente. O psicólogo está ali para ajudar a pensar o que pode ter na escolha de cada tom que ficou em evidência na tela. Se alguma cor estiver forte demais, de modo a ofuscar as outras belezas, é ele quem poderá ajudar a rever a pintura da história de vida do paciente.

É importante referir ainda que a psicologia não nos transforma em leitores de mentes, não possuímos uma bola de cristal. Não adivinhamos pensamentos e sentimentos, não ficamos analisando o tempo todo, até mesmo porque, fora do espaço da clínica, qualquer análise não teria legitimidade e não passaria de um palpite.

Foto: Dirce Becker Delwing

Outra questão interessante para pensar tem a ver com a postura desse profissional nas redes sociais. Há aqueles que nem possuem uma conta, há aqueles que se expõem muito pouco e há aqueles que são bem ativos e compartilham conteúdos de forma assídua. Não existe o certo e o errado. Cada profissional precisa se bancar diante da sua postura. Aquele que vai até o nosso consultório, em alguma medida, já fez a sua pesquisa. E até me parece bem honesto que, a partir dos rastros que deixamos, possa fazer a sua escolha.

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