O que deseja um escritor?

Acredito que muito antes de tornar meu texto público, escrevo para pensar, para poder nomear pensamentos


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Foto: Ilustrativa / Pixabay

Por que tu precisas escrever? Para cada escritor há uma razão diferente, embora a justificativa mais genuína se assemelhe para todos quanto a expectativa de ser amado e querido. Ninguém escreve para ser detestado e repudiado, até mesmo quando o texto é uma provocação que parece escancarar o desejo de causar repulsa no leitor. Como diria Freud, tantas vezes, contamos o avesso daquilo que pulsa no âmago da nossa existência. No meu caso, comecei a escrever na infância, com sete ou oito anos de idade. Escrevia pequenos bilhetes e os colocava entre as frestas de madeira. Acredito que era uma forma de continuar vivendo da melhor forma possível diante da vida financeira insegura que acometia a família.

Nasci com estrabismo e esse talvez foi o primeiro grande desafio – lidar com a visão fragilizada e com o preconceito da época em que ter uma deficiência era quase que vergonhoso para a família. Entendo que isso contribui para que eu me tornasse uma pessoa reflexiva e observadora. Da mesma forma, penso que a dor ensina a ver, a ter sensibilidade com as fragilidades e sofrimentos dos outros. Quando olho para uma pessoa na rua, num espaço público, muitas vezes, fico imaginando como é a vida dela, que dores deve ter, onde estão suas alegrias, medos e vaidades. A inspiração vem muito desse olhar.

Se escrevo para os outros? Acredito que muito antes de tornar meu texto público, escrevo para pensar, para poder nomear pensamentos. Fernando Pessoa disse certa vez que escrevia para salvar a sua alma. Talvez seja um tanto disso que convoca o escritor a escovar palavras como tão bem definiu o poeta Manoel de Barros. E sempre haverá uma boa dose de vaidade pessoal e, anterior a isso, o desejo de ser amado e querido. Quem fundamenta a afirmativa é Gabriel García Márquez: “Escrevo para que meus amigos me amem mais”. E, se pensarmos assim, cada palavra que lês estás permeada de afetos que desejam ser bons mesmo quando suscitam o inverso.

Texto por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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