O que pode ter no jogo de faz de conta quando pedimos “bis” num show?

"Acredito que a gente flerta com a expectativa do retorno, ao mesmo tempo em que sente uma espécie de orgulho alheio quando o artista cumpre o encerramento que ele mesmo anunciou", comenta a jornalista, psicóloga e psicanalista clínica Dirce Becker Delwing


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Foto: Pixabay / Ilustrativa

Outro dia estava vendo um show da Banda Roupa Nova quando fiquei pensando na função do “bis” que o público pede no final. A banda se despede, acena para a plateia, os técnicos começam a desmontar o cenário. “Mais um! Mais um! Bis! Faltou aquela!” A plateia forma um coro e grita em alto e bom tom. Os músicos fingem que o chamamento para o retorno é uma grata surpresa. Voltam ao palco e tocam mais uma, duas, três canções antes de encerrar definitivamente a apresentação.

Li que, muito antes da música popular atual, lá no século XVIII, a solicitação de pedir “bis” já era usada em apresentações de ópera. A intenção consistia em reivindicar a repetição do último tema tocado, diferente de hoje em dia quando pedir o retorno do artista ou da banda significa algo como: hey, faltaram canções no show. A gente quer ouvi-las.

Tem uma outra questão interessante que aparece nesse faz de conta que o show terminou. Por mais que a gente tenha quase certeza de que, em poucos minutos, a apresentação terá continuidade, fica um dedinho de dúvida. Elvis Presley, por exemplo, não costumava voltar ao palco após anunciar o fim do seu show.

Acredito que a gente flerta com a expectativa do retorno, ao mesmo tempo em que sente uma espécie de orgulho alheio quando o artista cumpre o encerramento que ele mesmo anunciou. Pode ser que a satisfação esteja no fato de estarmos na frente, ou supostamente diante de alguém que tem coragem para desagradar porque sabe que o show foi suficientemente bom enquanto durou.

Quantas vezes, no show da vida, aceitamos as aclamações de “bis” porque seguimos um comportamento cultural e não conseguimos fazer diferente. Desejaria verdadeiramente saber o que Elis Presley levava em conta ao ir embora sem olhar pra trás?

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista clínica

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