O ser humano precisa de um tempo para organizar os pensamentos diante da morte

"Ao observar repetidamente o novo contexto, a pessoa, pouco a pouco, consegue vislumbrar um novo tempo de vida do qual o falecido não fará mais parte de forma física"


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Imagem ilustrativa (Foto: Divulgação)

Ontem, Antoniela fez contato com a rádio. Alguém contou que comentei, no ar, sobre um gato morto que vi junto ao cordão da calçada na Avenida Alberto Müller, em Lajeado. Chamei Antoniela pelo Whats e já fui descrevendo como era o bichinho. De imediato, concluiu que não era o seu gato. Diferente desse, o dela tem pelos amarelos. Desaparecido há um mês, estava com a família há dez anos. Não conheço Antoniela, mas senti intimidade porque me identifiquei com a sua dor. Há quase um ano, fico olhando os terrenos baldios para ver se enxergo o bichano que desapareceu da minha casa. Não foram poucas as vezes em que vi algo branco e entrei mata adentro. Ao me aproximar, dei de cara com uma sacolinha de plástico.


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A dor da incerteza, do não sabido é duplamente sofrida. Você está, o tempo todo, diante da impossibilidade de fechar um ciclo porque sempre resta um fio de esperança. Antoniela não encontrou seu bichinho de estimação sem vida. Ela simplesmente não o encontrou mais. Pode ser que, a qualquer hora, ele volte. Também pode ocorrer de alguém o enxergar por aí, vivo ou morto.

Por tudo isso é que Antoniela vive com sentimentos misturados, que oscilam entre saudade, dor e expectativa.

O ser humano precisa de um tempo para organizar os pensamentos diante da ausência, da falta, da perda, da morte. Antes de olhar de um outro ângulo, é preciso entrar no quarto do ente querido para sentir o cheirinho de pele que ainda persiste no ar. Talvez seja necessário enxergar a cama vazia, o guarda-roupa intacto, os chinelos de lã alinhados ao lado do bidê. Ao observar repetidamente o novo contexto, a pessoa, pouco a pouco, consegue vislumbrar um novo tempo de vida do qual o falecido não fará mais parte de forma física.

Por tudo isso é que ninguém deve desmontar, com pressa, o cenário onde o falecido tinha seus pertences pessoais. Se você convive com alguém que perdeu uma pessoa amada, não seja ligeiro nesse quesito. Na intenção de amenizar a dor, você recolhe os pertences da pessoa que partiu. Eu sei, faz isso na melhor das intenções. Contudo, não tire o direito que a pessoa tem de chorar, de sofrer e de decidir quando conseguirá alterar a configuração desse espaço.

Por Dirce Becker Delwing, jornalista, psicóloga e psicanalista política 


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